Desistória - capítulo 5.

 

  

            E enquanto aqueles animais davam glória e honra e ação de graças ao que estava sentado sobre o trono...

 

 

            5. entardecendo.

 

 

            tantas e tais histórias e crônicas e contos e relatos e narrativas que eu já tenha escrito e eis que penso agora em escrever a minha própria vida. fico me perguntando até onde posso ir, para trás, tentando descobrir antecedentes à minha pessoa. sei que poderia consultar os documentos de meus pais e meus avós e meus bisavós. caminharia assim às avessas, até esbarrar nos ancestrais sem registros, anônimas criaturas do antes, que existiram para seu próprio existir e que deram impulso a fagulhas de vida que se multiplicaram e se juntaram e se reuniram naquilo que sou. eles não vieram para que eu viesse. nisso não creio. como não creio também que eu tenha vindo para que, através de mim, num futuro, uma vida futura venha a me reclamar como seu intermediário de existência. cada um vem por si só. e todos por tudo. é uma interminável cadeia de relações estreitíssimas, essa da vida, mas é a única cadeia em que se possa considerar cada elo como suficiente por si mesmo, apesar e apesar das dependências de cada um com todo o resto. apenas isto separa o homem do animal. talvez seja uma questão de ponto de vista. difícil isto de ponto de vista.

            volto a minha história. não vou procurar registros em arquivos cheios de mofo e esquecimento. tentarei começar do passado que conheço, pelo que me lembro de histórias ouvidas de avós e bisavós. não é que a soma dessas histórias vá se concentrar na minha história; vai essa soma passar por mim. passar por mim. passar por mim e continuar à sua maneira.

            tomo fôlego e tento me lembrar do que sei sobre os elos que vieram antes.

            o pai do meu avô paterno foi um soldado desconhecido que, numa invasão de aldeia, violentou uma menina de treze anos, já formada. ninguém sabia o nome dele nem a sua idade e ela não chegou a perceber a cor de seu olhar. eles entraram na escola silenciosa, embriagados e imundos, um bando enorme, e dividiram as presas entre si e se saciaram cantando o hino de seu país, a terra das altas montanhas. ao ritmo daquele canto selvagem, eles depositaram nos corações das menininhas o desespero do terror e nos úteros noviços as sementes de róseos e vivos bonecos de carne. as meninas foram escondidas e protegidas por mães aflitas e envergonhadas, esquecidas estas mães de que todos, jovens e velhos, tinham sofrido as mesmas humilhações; como se humilhações mascaradas se tornassem menos humilhantes. e os nove meses se passaram e num curto tempo a aldeia foi brindada com um grupo chorão de filhinhos do susto e do primeiro prazer inesperado.

            o parto de meu avô, consta que foi demorado e doído. sua mãe, ainda não com quatorze anos, lavou-o com cuidado, embrulhou-o na toalha branca recebida de uma parenta e disse que ia dormir. amanheceu pendendo na forca da praça, a mesma forca onde eram enforcados os ladrões mais perversos e os assassinos. ninguém soube como conseguira preparar a corda ou como chegara à praça, tão abatida estava. meu avô foi criado por sua avó até dois anos e depois entregue a uma instituição para órfãos. e os meninos sempre o chamavam de filho da forca. o filho da forca foi o pai do meu pai.

            o casal que foi pai e mãe de minha avó paterna, vivia numa grande cidade, num país do sul. ele, meu bisavô paterno, era um jovem rico que se dizia descendente de antigos reis. era inconstante e orgulhoso e tinha apenas quinze anos quando se casou. sua mulher tinha vinte anos a mais. ela se casara por pressão da família, de uma nobreza decadente e nenhum dinheiro. para o jovem rico, o casamento era uma forma de obter um título de família. eles tiveram apenas uma filha, que foi a mãe de meu pai. aos dezessete anos o meu bisavô tomou um pequeno barco de aventureiros e se lançou ao mundo. e minha bisavó passou o resto de seus dias numa varanda do enorme casarão, a olhar para o mar. perdido o brilho dos olhos e a cor dos lábios, ali ficou ela, deixando-se esquecida num tempo que não acabava nunca. o bisavô nunca mais voltou e nunca mais se soube dele. num crepúsculo de inverno, incendiado e louco, foram chamá-la para jantar e ela dormia. os criados não quiseram incomodá-la. só mais tarde, quando sua velha mãe a procurou para dar boa-noite, foi que descobriram que ela estava morta.

             os pais de meu avô materno se conheceram numa fazenda. ele, um jovem trabalhador rude, de corpo forte e rosto expressivo, ela, uma filha de cozinheira, cheia de prendas domésticas. ele vinha de uma viuvez que lhe deixara pai de um casal de filhos. ela, muito nova e inexperiente. os parentes mais velhos resolveram do casamento e acertaram dos detalhes todos. vi um retrato pintado do jovem casal, ele com cabelos crespos, lábios finos e olhos que escondiam uma fugidia e explosiva loucura. ela, a boca caída nos lados, torcida por uma tristeza infinita, e os olhos perdidos numa neblina de mágoa dissolvida. tiveram quinze filhos. durante alguns anos, sua vida foi tranqüila no sentido de nada faltar em sua casa. havia fartura e alegria. mas a sensualidade de meu bisavô materno perturbava minha bisavó. ele passava noites e noites fora e voltava a cada madrugada mais embriagado que nunca. hoje brigavam mais que ontem e amanhã mais que hoje. quatro dentre os filhos maiores já se tinham casado, um vindo das primeiras núpcias do bisavô e três do casamento com sua segunda mulher. a situação da família entrou em decadência. as brigas, as crises econômicas, a embriaguez do patriarca, tudo fazia o clã caminhar para a dissolução inevitável. então se aproximavam as festas dos vinte e cinco anos de casamento e a bisavó promoveu um jantar só para a família. despediu a cozinheira, dizendo que, como nos primeiros tempos, ela prepararia tudo. e vieram os filhos casados e suas mulheres e maridos e mais um netinho recém-nascido. e a bisavó serviu a todos a sopa de cebola e no meio de uma alegria meio tímida as pessoas sorviam suas colheradas de sopa e a mãe novata, enquanto comia, dava ao bebê recém-nascido a sua mamadeira. e um dos filhos, o penúltimo, se recusou a comer e a bisavó se encheu de um inusitado ódio e o bisavô lhe deu razão e tentou enfiar à força a sopa pela garganta do pequeno que contraía os lábios com violência. então sucedeu todo o horror. começaram a se olhar cheios de espanto e dor e a se contorcer e a gemer e a bisavó louca começou a gargalhar e a chorar ao mesmo tempo, gritando que todos tinham sido envenenados, inclusive o netinho bebê, menos aquele pequeno demônio que perpetuaria a descendência de miséria e a quem ela amaldiçoava com a praga dos... não pôde terminar e nem todos já a ouviam. o pequeno teimoso, branco e rígido, de pé, esteve a olhar os corpos que caíam com suas golfadas de sangue a escapar de suas bocas, vinte e três corpos, homens, mulheres e crianças e um pequenino e arroxeado bebê de olhar parado no vazio. e branco e rígido e de pé, esteve o menino até a manhã do dia seguinte, quando os vizinhos encontraram a hecatombe. uma senhora cega apiedou-se do órfão total e o criou. silencioso, quase mudo, passou mais tarde a ler para ela poemas antigos, com sua voz inflexível, sem tremor nem comoção, e seu olhar parado no dia que nunca acabou. este menino foi um dia o pai de minha mãe.

            dos pais de minha avó, mãe de minha mãe, nada nunca se soube. ela apareceu numa madrugada morna, enroladinha em farrapos muito limpos, à porta de uma casa simples, com um recadinho mal escrito: cuidem de mim pelo amor dos céus. ali, ela ficou até três anos, quando se perdeu dos pais adotivos numa fuga noturna, a aldeia prestes a ser invadida. dos três aos oito anos, viveu no meio de um bando de mendigos que ia de cidade em cidade, pedindo comida em troca de canções: religiosas ou obscenas, conforme a aparência da casa; se a casa era austera e simples, cantavam das criaturas do passado, histórias que se perdiam nas origens, falando de quedas de estrelas para castigar a impiedade humana; se a casa era jovial e colorida, cantavam de encontros furtivos de amantes no meio dos bosques e de beijos que queimavam a boca e incendiavam todos os sentidos. e numa dessas casas, aquela criança foi entregue a uma senhora de olhos ardentes, que criava meninas órfãs até a idade em que elas pudessem ser prostituídas. ali ela viveu até os doze anos, quando, um dia, um cobrador de impostos, arrogante, debochado e lascivo, quis aproveitar-se de uma sua amiguinha mais velha que estava meio adoentada. minha ancestral rebentou-lhe a cabeça com uma pá de jardim e as duas fugiram pelo mundo, ficando aqui e ali, trabalhando de casa em casa por comida e roupa. souberam dias mais tarde que a casa onde viviam tinha pegado fogo, incendiada pelos soldados do rei. foi quando saíram da região e se perderam pelo país dos grandes lagos azuis.

            e então passo à gênese da geração anterior à minha. e então passo à história de meus pais. e eis que minha avó mendiga, a filha dos pais desconhecidos, acabou por ir trabalhar na casa da velha cega. e lá conheceu o jovem que lia histórias e poemas sem nenhuma expressão na voz. e ele nunca prestava atenção a ela, quando ela trazia o chá ou quando vinha deitar o xale às costas da patroa ou conduzi-la ao leito. e ali ficou ela um tempo e veio um dia, contou-me isto ela mesma, minha avó materna, veio esse dia em que ela não resistiu ao apelo impulsivo e lírico de seu corpo febril e se aproximou por trás daquele que seria meu avô e o beijou no pescoço e ficou segurando seus ombros. e então a voz dele fez entornar do livro um poema cheio de sobressaltos e lágrimas. assim estiveram e ao terminar a leitura, perguntou a velha cega

            quem está aí?

            ninguém.

            mas é claro que ela percebeu. percebeu e se calou. e para a tarde seguinte ela separou livros com textos de amor e morte. e o jovem começou a ler com sua voz monocórdica enquanto esperava pelo que tinha que acontecer. e a moça se chegou e se ajoelhou no chão e deitou a cabeça no seu colo e os poemas ferveram em comoção e desespero e ele tremia cheio de febre e sua voz expelia faíscas de uma emoção insuportável. e enquanto falava de amor e morte, rebentou dentro de seu corpo o gozo de furacão contido, ao contato daquele rosto que se apertava contra seu sexo. e foi silenciada a leitura e a velha cega, as narinas atentas ao ar como uma égua a cheirar a chegada da primavera, a velha cega esperava. e assim foram os dias seguintes, iguais em leitura e encontro, mas crescentes em ousadia e fúria amorosa. aos poucos o jovem par se descobria, inspirados pelo cheiro que seus corpos deixavam escapar e associados à linguagem insana e sugestiva dos poetas. até que veio o dia em que ela se desnudou enquanto ele lia os anseios e os temores de uma profética voz eterna e ela o desnudou em seguida mas ele não silenciou a leitura, que continuou a jorrar como impetuosa fonte de palavras cheias de música. paralela à poesia louca e bela que sua voz quase chorava quase cantava, paralela à poesia, escorregava crescente o seu descomunal prazer, como a lava fervente de um vulcão que vai inflando e subindo e quando os corpos um só corpo iam explodir nos ares, aí sim, a poesia insuficiente silenciou e deu lugar a gemidos e urros e a respiração de ambos se acelerou e se conteve um tempo imenso, presa por um espanto e um grito que não cabiam mais no coração. e do profundo de todo o seu ser, o um só vulcão se projetou no mundo, cheio de força, cheio de ira, cheio de choro, cheio de prazer, cheio de cansaço, cheio de paz, cheio de sono.

            a velha sorria silenciosa e feliz. depois, levantou-se lenta e, seguindo o calor e o perfume do amor, procurou com toques leves o casal adormecido e jogou-lhe por cima o seu xale, afastando-se devagarzinho.

            estes dois foram o pai e a mãe de minha mãe.

            e eis como foi que foi feito meu pai: era uma louca noite de lua e minha avó, filha da mulher que morrera olhando o mar, passeava pelo parque. parecia, tanta luz, uma eterna e azulada madrugada que teimava em não romper, apenas se anunciava naquele clarão controlado. ficaria muito fácil dizer que minha avó herdara de sua mãe a alma melancólica e sentimental e de seu pai o espírito ousado e o desapego às coisas comuns. não direi. qualquer que fosse seu temperamento, sempre se encontraria no pai e na mãe uma justificativa para explicá-lo. pessoas não precisam de explicação. basta que sejam como são, sem marcas recebidas. se não, como justificar as marcas não recebidas? digo assim que a avó era melancolicamente sentimental mas marcada por impulsos fortes ao inusitado e ao insólito. passear sozinha pelo parque de sua casa, ainda que com lua, era uma mostra de sua melancolia e de sua coragem. ou talvez, principalmente, por ser noite de lua cheia. a lua espalhava, junto com sua luz, uma vontade de loucura. os olhos brilhavam mais, o corpo tremia mais facilmente, os passos adivinhavam caminhos. no meio da não chegada madrugada azul, ela ouviu um som de flauta. e seus pés acharam a vereda da música. e ela chegou junto a ele, o filho da forca, que, sentado numa pedra, enrolado num cobertor de lã, executava uma estranhíssima melodia vinda de algum país distante. ela parou a escutar, abraçando-se a si mesma, por causa do frio. ou não. e ele, apesar de tê-la percebido, continuou concentrado em sua execução; talvez, agora que a tinha percebido, mais concentrado do que antes. e só depois que chegou ao termo de sua ária, foi que a olhou. e vendo que ela tremia de frio, levantou-se e envolveu-a com sua coberta, sentando-se nu sobre a pedra. esta foi a história que me contou meu pai, mas não acredito nas histórias de meu pai, fantasioso e sonhador. e contou ele que ela reconheceu nele um empregado da casa e falou apenas:

            sei quem é você.

            ele sabia que era ela a dona do casarão, mãe de três filhas negras e belas como as estrelas. sabia também que havia nove gerações não nascia um filho varão em sua família.

            e eles se deitaram sobre a coberta e nove meses depois, o tempo necessário para que uma noite se transforme numa vida, nove meses depois nasceu meu pai e seu nascimento foi comemorado uma semana em toda a cidade. e uma coisa eu nunca entendi. como sabia meu pai dessa história? será que ele a inventou porque odiava mortalmente o marido de sua mãe, que deveria ser seu pai? porque se viu ele forçado a tomar como pai aquele que era um dos homens mais humildes do casarão? é bem verdade, é bem verdade que, no dia em que minha avó morreu, o filho da forca desapareceu. nunca mais foi visto. não sei o que pensar. não sei se meu pai estava certo. meu pai foi uma estranha figura. conta-se que foi um menino medroso, fugidio, assustadiço. chorava por um nada e se as pessoas exigiam dele um comportamento mais masculino, então ele chorava mais e se escondia de todos por diversos dias. minha avó falava que, desde menino, ele pedia para que ela contasse histórias e quando ela começava ele a interrompia: é verdade ou é mentira? e se ela dizia que era uma história inventada, ele sorria feliz e se fazia atento. mas se ela falava que era uma história acontecida, de verdade, ele decidia firme: dessas eu não quero! e que quando ele aprendeu a ler, recusava-se a estudar a história do homem desde a sua criação, quando a terra se casou com as estrelas, e se recusava a estudar a ciência dos números e a dos objetos inanimados e a dos seres vivos. se perdia horas lendo e relendo as mesmas lendas e as mesmas mentiras e as mesmas fantasias. e inesperadamente, um dia, falou a sua mãe que ia passar a escrever cartas a toda a gente. e se pôs a escrever romances que nunca mais se acabavam, cheios de criaturas fantásticas, fora de qualquer lógica humana, com seus descendentes carregados de emoções contraditórias e comportamentos inesperados. e quando alguém o interpelava, exigindo dele uma coerência com a vida, ele nada falava a não ser: há uma lógica mais profunda na fantasia que na realidade. e às vezes só o exagero da fantasia dá a exata dimensão do real. não tenho culpa se vocês só têm acesso a essa forma de vida cotidiana e superficial. e se calava.

            um dia minha avó recebeu a visita de uma jovem. ela queria conhecer seu filho, que era tido como um excelente escritor. e eles se conheceram e aquela jovem decidida conquistou o coração de meu pai, com sua objetividade, segurança, firmeza. casaram-se e formaram um lar cheio de livros que vinham do mundo inteiro e cheio de amigos que executavam nas tardes mornas as suas músicas últimas. e discutiam sobre os acontecimentos do reino e sobre os homens que governavam e sobre os costumes do povo e tantos eram os assuntos que discutiam que minha cabeça às vezes fervilhava febril toda uma noite, cheia de informações e opiniões que eu não entendia. assim foi meu lar.

            e eu paro agora esta minha narrativa para analisá-la. estranho que tenha falado de encontros de avós e bisavós e amores que resultaram em rebentos vivos, e nada queira falar do grande encontro noturno em que eu deva ter sido fecundado; e estranho que eu tenha me estendido em relatos de envenenamentos e forcas, tão passados, e nada queira dizer de meus primeiros anos de vida. e concluo que contar uma história é contar as marcas que ela deixou. e que pode chegar um momento em que eu volte ao passado para me lembrar de um fugitivo acontecimento que eu julgava não estar encadeado ao meu hoje, para desamarrar antigas cadeias ou para justificar o presente não completado. por que, contar uma história, é também reforçar a memória viva; é selecionar dentre as lembranças mais quentes, aquelas que mais queimam. pois se pretendêssemos narrar todo o passado, não viveríamos o hoje. contar é se preparar para melhor viver o hoje. por isso os saltos e as neblinas e as falhas. o hoje urge. exige. mas o passado morde, se diz presente. contar é misturar o de ontem com o que está sendo hoje. não posso amanhecer meu dia sem a memória de minha dor. não se tapa buracos com mãos cheias de nada. e minhas mãos, eu as encho com memória, memória aos pedaços, mas quente e viva. e com esta matéria eu continuo a me construir. é também como se eu selecionasse de toda a história, aqueles trechos que me emocionam mais; isto sempre foi muito importante para mim.

            então, entre saltos, neblinas e falhas, eu chego ao grande reino do sol eterno. e sou apresentado ao magnificentíssimo rei. e recebo a incumbência de fazer o maior levantamento histórico de que já teve notícia o nosso mundo. eu deveria viajar alguns anos, recolher todo o material que fosse disponível, e levar o resto da minha vida a escrever a grande aventura do homem. a enciclopédia.

            e eis tudo aquilo que vi:

            durante dez anos visitei quase todas as regiões do planeta. quando não havia possibilidade de ir a determinados locais de difícil acesso, eu procurava saber de todos os detalhes sobre a região. e nos locais visitados eu procurava conversar com diversos habitantes e anotava tudo que fosse necessário. dez assistentes cuidavam de todos os papéis escritos, ordenados com lógica e método, como um grande arquivo. e vi como estava o mundo, desorganizado e heterogêneo. ao lado de cidades portentosas e progressistas, espalhavam-se aldeias atrasadíssimas. paralelas a regiões de costumes civilizados, encontravam-se regiões bárbaras e primitivas. os costumes variavam como a noite difere do dia. se, em um lugar, nós éramos recebidos com civilidade e cortesia, noutros, nossa vida por vezes chegava a correr perigo. o homem se distanciava mais de coração que de geografia. uma pequena guerra arrasava aqui uma toda aldeia, destruindo casas e palácios, enquanto elevava a cidade vencedora a situação de domínio de toda uma área, com luxo e riqueza. a guerra era a única constante. aqui, para elevar, ali, para destruir.   e eu concluí que a guerra é o homem. que haverá guerra onde houver o homem. tipos de guerra, tantos quantos são os tipos de homens. e que existe guerra não por que há motivos para guerra, mas porque o homem os cria, impulsionado por seu instinto de destruir. e descobri que a maior fatalidade é que todos os motivos para a guerra são forjados sobre crenças inúteis. apenas crenças inúteis. uma criança terrível mora no coração dos povos.

            e se algumas pessoas dizem que a guerra é criada por indústrias de guerras, criaturas inescrupulosas que querem vender os seus artefatos de destruição, alimentando pequenos focos de disputa, para que sejam vendidas suas máquinas, eu digo que essas criaturas inescrupulosas não são os fazedores de guerra! eles estão apenas se aproveitando de um impulso humano, criando aquilo de que se necessita, máquinas de morte para a vitória e o domínio! do mesmo modo como estes mesmos inescrupulosos homens se aproveitam da vaidade, vendendo cores e máscaras e novidades, e da insegurança, vendendo sonhos e paraísos e fantasias. o que digo não os faz perdoáveis. a cada um a sua quota!

            há guerras porque pais e mães odeiam seus filhos; ou porque filhos odeiam a pais e mães; ou porque o homem se odeie a si mesmo.

            e era a guerra que encaminhava o homem a seu futuro. ou vale dizer que era o homem que fazia o seu amanhã, com tudo aquilo de que dispunha, que era muito pouco. ou muito muito, difícil dizer. fácil é dizer que o homem sofre e não sabe como melhorar o seu momento.

            e descobri que regimes que se chamavam livres, não o eram, e que os nomes e os adjetivos atribuídos aos estados eram o mais das vezes o inverso de suas realidades: estados terríveis e opressores se diziam sociais e democráticos, com rótulos maravilhosos a esconder dos cidadãos venenos e azeduras que matam durante toda uma vida.

            enquanto eu viajava, comprava, em nome do magnificentíssimo rei, os livros poucos que restavam. assim, seria concentrado num grande reino todo o relato sobre a humanidade. se tinha tempo, eu os estudava; se não, eu os separava para depois. tentei comprar inteiras pequenas oficinas e indústrias caseiras abandonadas, que, se levadas ao grande reino, poderiam ser estudadas e reativadas. houve troca de correspondência mas o magnificentíssimo se negou ao projeto, alegando que as despesas eram muitas e altas e que o reino passava por uma reforma de orçamento, a cobrança de impostos não estava sendo suficiente para os gastos com o estado, cada vez maiores. que continuássemos, porém, com a compra de todos os livros e documentos.

            então, digo que voltei e estive praticamente preso numa biblioteca imensa durante muitos anos. o magnificentíssimo me visitava às vezes, com seus seguidores cheios de cores e fausto. vez ou outra eu participava de festas, principalmente daquelas em que podia assistir músicos ou atores com suas novidades. cansado de ler ou escrever, ia ao parque passear ou visitava as aldeias vizinhas, onde os velhos e as velhas me falavam de coisas já esquecidas, de histórias em que figuras do céu se misturavam ao povo para conhecer e castigar os homens. e na biblioteca, lendo e lendo, agora e depois, hoje e amanhã, pude refazer aos poucos, em parte, a nossa grande aventura.

            o homem surgira na terra há muitos e muitos anos, quando sobreviera um cataclismo, algo como a queda de grandes corpos celestes, que os antigos diziam ser estrelas. as lendas contavam versões diferentes mas todas terminavam por concluir que a raça humana surgira após o grande desastre. houve então um regime como um grande reinado, toda a terra sob um só poder. os documentos são falhos, algo aconteceu para que as regiões começassem a fazer guerra entre si. e esta guerra destruía diversas invenções que eram perdidas para sempre. aqui as lendas se confundem às vezes com a história: tantos são os inventos, e de tal poder miraculoso, que fica difícil acreditar que aquilo tivesse realmente existido. falam de máquinas complexas que levavam a voz e a imagem do homem de continente a continente, de máquinas sem animais de tração que podiam transportar o homem e seus pertences até distâncias quase impossíveis, de pássaros de ferro, ocos e cheios de poder, que voavam carregando gentes e de enormes barcos que poderiam transportar todo o conteúdo de um palácio de um grande rei. foi acontecendo que os grandes governos sempre se dividiam em governos menores e cada divisão correspondia a uma perda.

            e pude perceber a diferença entre a história contada antes e a história de agora. antes, a história criticava os fatos, depois passou a apenas narrar os fatos, mais tarde começou a se concentrar nos feitos dos reis e temo que ela passe a inventar feitos grandiosos que nunca aconteceram. sabe-se lá se não chegaremos ao dia em que inventaremos grandes interferências vindas dos céus, como fazem os velhos das aldeias, misturando história e fantasia.

            e constatei que a literatura caminhou um caminho semelhante. primeiro, analisando ou apresentando o homem comum e sua vida comum. depois os grandes heróis e seus feitos. estamos numa fase de histórias de reis e príncipes cheios de virtude. deduzo que acabaremos por narrar os feitos dessas criaturas chegadas dos céus.

            do teatro, direi que encontrei provas de apresentações que deixavam os homens cheios de dúvidas, procurando ensiná-los a pensar. há apenas referências a este tipo de peça, não o texto em si. vivemos depois um teatro em que as grandes virtudes eram louvadas. geralmente o indivíduo sacrificava suas paixões ao grupo social. não saberia prever o destino do teatro, talvez narrar de maneira ritual os encontros entre os homens e as criaturas divinas e depois contar as vidas das divindades.

            da música e da pintura, direi que já vivemos dias melhores. instrumentos muito sofisticados foram destruídos e tipos de tintas tiveram perdidas as suas receitas. e então o que temos hoje é algo simplório e mal acabado, em comparação com as descrições que encontrei em documentos antigos. me pergunto se terminaríamos com o tipo de música rítmica e simples das aldeias e suas pinturas murais. não sei.

            as mudanças científicas foram desastrosas. fala-se de máquinas para ver o muito longe e o muito pequeno. fala-se de complexos sistemas que não compreendo. não sei se terei tempo de estudá-los até a compreensão. tenho tentado. o problema mais sério, dentre as questões científicas, é o do aparecimento do homem. lembro-me de um grupo em discussão em minha casa, conversando sobre uma idéia antiga, de que o homem poderia ter vindo do animal, assim como se todos os seres vivos pertencessem a uma escala biológica que se tornasse cada vez mais complexa, partindo de um ser vivo original. meus pais e os visitantes concluíram que era uma teoria difícil de ser aceita, pois que não havia muita relação entre seres tão diferentes como aves, répteis e mamíferos, por exemplo. os documentos recentes tentam criar uma teoria de nascimento espontâneo do homem, mas não se chegou a nenhuma conclusão. pensam que houve uma interferência desconhecida.

            e assim eu estou pesquisando e anotando tanta coisa e temo muito pelo tempo que me consome rapidamente. os dados são muitos, minha memória confunde as coisas no mais das vezes. e temo mais que tudo pelos rumores que rondam o palácio. o povo, diz-se, está descontente. os impostos são muito altos, eles trabalham a terra duramente e quase todo o produto deve ser entregue aos cobradores do palácio. fala-se que o rei e seus seguidores exploram essa imensa região, para manter intactos o seu luxo e o seu poderio. um bêbado me explicou numa festa do povo, cheio de fúria, que mais dia menos dia, as aldeias vizinhas se juntam com suas ferramentas, suas foices e seus martelos, invadem o grande palácio, sangram a todos e deitam fogo a tudo, não deixando tijolo sobre tijolo.

            como resumirei tudo o que tenho estudado? como direi das mudanças que tem sofrido o homem ao correr de sua própria narrativa? antes orgulhoso e organizado, agora cheio de medo e fanático. como falarei detalhadamente sobre as classes de pessoas? aqui um grupo que trabalha até a exaustão, sugado e explorado, ali um grupo menor que vive do trabalho alheio. e como estudarei a origem dessa situação? e como procurarei entender o contrato social que sustém estas duas partes, uma vinculada à outra de maneira tão imutável e segura? e terei eu tempo para escrever que a cada dia o homem, motivado por sua insegurança, se faz mais presa de forças extraordinárias e fantasiosas?

            e para entender uma linha de um livro eu preciso ler outros tantos livros e nessa nova busca eu me perco em novas e surpreendentes dúvidas. e se tento ler de novo o mesmo livro me encontro assustado ante coisas não conhecidas, como se reler um livro fosse ler outro livro, conhecer outra pessoa ou ouvir outra mensagem.

            preso que estou num emaranhado de questões difíceis para uma só cabeça, temo pelo tempo que não tenho. e sei que não me bastaria, para esse propósito, todo o tempo desse mundo. e fico pensando cheio de horror que talvez eu represente na história do homem o seu último momento de lucidez. e é uma lucidez árida e pequenina que não resistirá à avalanche de instinto e fanatismo que me rodeia, avançando firme e indomável. eis-me perdido e prestes a enlouquecer no meio de todos estes escritos. sinto-me zombado por minha memória, que principia a falhar. que reminiscência me pertence e que lembrança me ultrapassa? como saber o que é apenas a história do homem e o que é interpretação subjetiva de meu cérebro sobrecarregado de vanidades pessoais. não me desdobrei de mim mesmo. o tempo não me espera, eu sei. parece afinal que tudo que estou contando pertence a uma seqüência mais ampla de uma história que é antes de mim e será depois. eu me perco no meio de tantos livros. livros, livros e livros. não quero considerá-los apenas livros. são muito mais do que papel com textos. preciso decifrá-los e codificá-los de novo numa ordem sensata dentro de um rigor científico! o tempo não me espera, eu sei. talvez também os aldeões não queiram esperar, com suas foices carentes mais de vingança que de justiça. terão tempo, eles mesmos?

            e no entanto nada disto faz a mínima diferença. sei que houve uma série de fatos antes de meu agora e sei que outra série que não me pertence deve se seguir. e assim sempre foi desde antes até o fim que nunca chegará. chegará para mim, para nós, mas nunca para todos, porque depois do depois, estarão os outros.

            gostaria de pensar que para eles também haveria o livro...