Desistória - capítulo 3.

 

 

Toma o livro e devora-o.

 

            3. dias de insônia.

 

            quanto ódio cabe no coração humano?

            qual o tamanho do máximo medo suportável?

            de que poço sem fundo nasce a decisão do desafio?

            quero começar do começo.

            queria começar do começo. não sei onde é o princípio de minha história. não sei se tem princípio e menos ainda sei se é história. que seja história, já que qualquer história é história, mesmo a do projeto de homem não fecundado. nesse caso ficaria o projeto do sonho ou o projeto do desejo ou o projeto da esperança. e quantas vezes não é a história do desejo, da esperança ou do sonho, uma vazia história mais digna e perene que as histórias de tantos homens, com suas apenas urinas, fezes, babas e ejaculações? seja minha história história. história sem princípio e com final.

            como só tenho perguntas e não-sei no coração, decido por uma história já começada, sem ordem cronológica nem rigor lógico. esta que acabei de introduzir, falando de um grande ódio, um grande medo e a decisão do desafio.

            pensei a princípio evitar descrições e narrativas de um cotidiano que terminou por me trazer, através de uma insônia desoladora e controlada, a este ponto onde estou agora, o limiar do meu próprio fim. mas percebo que sem descrições e narrativas não me farei entendido. não sei se me pretendo entendido. não sei se consigo.

            sei, porém, que não quero ficar tecendo labirinto em cima de labirinto, como uma angustiada criatura de um livro antigo.

            então, resolvo pela mínima narrativa, apenas a indispensável para que se entenda aquilo que pretendo contar. e para isso, divido meu narrar em duas partes: que mundo é esse meu? e o que tenho a fazer dentro dele?

            já se passaram muitos e muitos anos desde que o grande cataclismo sobreveio. estudamos nos livros de história do homem que houve um desastre inesperado e que infelizmente naquele acidente muita gente tinha morrido e quase todo o patrimônio cultural da nossa espécie estava perdido ou prestes a desaparecer. mas os livros todos repetem que o principal objetivo da grande reconstrução tinha sido alcançado: em poucas dezenas de anos, todo o planeta voltava a viver sua vida antiga, cheia de conforto e sedução, um admirável mundo sob todos os sentidos. um grande governo, escolhido por representantes idôneos de cada continente, regia a ordem universal e dirigia as populações obedientes ao passo final. e dizem os livros que, com a participação individual, a nossa grande civilização se ultrapassará brevemente, mais breve do que sonha o ingênuo sonho do homem. e nós, leitores desses livros cheios de superlativos, escritos numa gramática impecável pelo grupo dos chamados sete sábios da terra, nós éramos compelidos a estudar todas as ciências para tentar, a cada nova vez, dar o passo heróico que separaria ainda mais fortemente nós homens daqueles que nos são inferiores na escala da vida.

            e eu fui escolhido, depois dos testes superiores na segunda escola, eu fui indicado para me dedicar de corpo e alma a um ousado projeto.

            contavam os mestres que tinham sido descobertos, voando em torno do planeta, em rotas determinadas e precisas, uns pequenos corpos feitos, possivelmente, pelo próprio homem, que emitiam sinais mínimos a algumas grandes máquinas. sabia-se que estas máquinas estavam ligadas aos telefones mas estes funcionavam independentemente delas, desde que um grupo, logo após a noite negra, tinha se dedicado inteiramente à sua ressurreição, o que foi conseguido após exaustíssimos estudos. e mais: lendo uma página não carbonizada de uma revista dos dias anteriores à noite da queda das estrelas, uma estranha página de revista com fotografias a cores, diferentes das nossas em branco e cinza e preto, lendo esta página, um grupo de pesquisadores descobriu que as grandes máquinas deveriam se prestar a comunicações a grandes distâncias, assim como se fosse possível nós do sul nos comunicarmos à mesma hora com os do norte.

             este projeto, diziam, era para ser entregue às pessoas em quem a república universal depositava a maior confiança, uma vez que, para se ter acesso a todas as informações necessárias, ter-se-ia, no mesmo processo, acesso a informações de grande confidência, que poderiam ser manipuladas por um louco ou um terrorista para a destruição da ordem comum. crime que, se descoberto a tempo, seria punido com a morte execrável.

            do ponto de vista prático, disseram que as máquinas eram cuidadosamente conservadas por uma excelente equipe de técnicos, que as limpavam com regularidade, para evitar o mofo e a ferrugem. e que também já se tinha feito cópias de um desenho que permitiria a uma das fábricas do norte a criação de quantas máquinas fosse necessário para deixar todo homem em contato com os homens todos.

            o professor me escreveu um bilhete, dizendo-me que preferia me atender em sua casa e não na terceira escola, por não se sentir muito bem nesses últimos dias. a casa não era longe de meu alojamento de solteiro, resolvi ir andando.

 

            as pessoas se arrastam tranqüilas e insensíveis, tentando encontrar seus destinos. penso que o destino dos homens se escondeu. homens que sabem para onde vão não se arrastam com essa paciência dolorida. se arrastam tranqüilas e insensíveis atrás de suas verdadeiras máscaras. penso que as caras de todos os homens foram escondidas. homens que têm suas próprias caras não possuem este olhar de ontem e este sorriso de não nascido. tranqüilas e insensíveis, tentando encontrar suas almas. penso que foram arquivadas as almas de todos os homens. pessoas que vivem não flutuam com tanta leveza sobre ruas tão limpas. caminhar paciente, olhares e sorrisos não chegados ao agora, passos leves de fantasma, esta foi a ordem que foi construída a partir do zero. não se tapa buracos com mãos cheias de nada.

            e eu caminhava; ordeiro também eu, no meio da ordem. talvez eu mesmo sem destino, sem cara e sem alma. um igual. um igual a mais. mas havia dentro de alguma grota no fundo de todo o meu ser, atrás de mim, quem sabe? ou mesmo do outro lado daquilo que eu pensava ser, havia nalgum ponto indecifrado, um verme a me roer as cordas da segurança. algo que me sussurrava de longe para não ter cuidado. para não evitar. para não me esconder. para ter a febre. e, se fosse preciso, para chorar.

            é claro que estas idéias não eram nítidas naquele momento em que eu caminhava. elas se fazem nítidas, ou mais ou menos nítidas, agora, quando escrevo, aqui no meu lar compulsório, este apertado cômodo sem janelas, onde devo esperar aquilo que há de vir.

            eu apenas caminhava em direção à casa do professor. pensava coisas que não entendia: só aqui e agora eu existo puro. no entanto eu não passo do caos que é tudo aquilo que já fui e tudo aquilo que pretendo ser. sou essa ponte que não termina. mas é o caos que é a minha história.

            puxei a corda e ouvi o sininho. demorou para que atendessem. não se costuma nesses novos tempos bater duas vezes à mesma porta, diz um dos muitos ensinamentos. fomos criados para uma só palavra, um só gesto, uma só decisão definitiva. e sempre obedecemos a esses ensinamentos. mas, como eu queria a febre naquela noite, bati de novo.

            o professor então apareceu, abriu a porta e, ao me ver, abriu também um sorriso estranhíssimo. aquele sorriso me perturbou. pensei que daria para encher todas as almas dos que passavam lá fora e seria como se eles já tivessem encontrado uma justificativa para aquela existência tão quebradiça.

            quebrar regras, hoje, nesse momento, significa para mim excelente presságio. como vai?

            eu peço desculpas porque bati de novo. o senhor está bem?

            pedir desculpas é esvaziar meu presságio. entre.

            então peço desculpas por ter pedido desculpas, disse eu, rindo, já meu riso envenenado pelo sorriso estranhíssimo dele.

            sorria como agora e todos os perdões serão desnecessários. eu não estou bem. por enquanto. vamos conferir nossos objetivos? sente-se.

            sim. eu vim, escolhido pelo senhor, a receber sua orientação para um projeto. me informaram que o senhor analisou meu currículo.

            é verdade. pesquisei sua história durante a primeira escola e acho que você é o homem de quem eu preciso.

            a primeira escola? professor! então não analisou meus estudos recentes? lembrei-me na hora de minha antiga professora que dizia: você tem algo a mais na cabecinha maluca!

            há nesse seu alojamento centenas de pessoas com os mesmíssimos méritos. não me interessam estudos mas comportamentos. não quero sua cabeça, sim sua alma.

            não entendo bem.

            não dá para entender. por enquanto. vamos à biblioteca. tomaremos um chá e eu me explico por inteiro.

            o lugar onde estou agora a escrever, este lugar onde devo ficar até que se suceda aquilo que tem que suceder, este lugar atrai aflito a minha narrativa. que caminhará, a partir de agora, aos saltos e acelerada, como se meu destino inclinasse seu plano e fizesse cachoeirar a água da minha vida, que se precipita em direção a esse meu presente.

            o professor mostrava os livros e falava, tranqüilo e lento, apesar de deixar um brilho estranho escapulir de seus olhos, quando ele dava sutil ênfase a algumas palavras.

            tenho cópias e cópias de livros, dos atuais e dos que foram redescobertos. está difícil conseguir papel hoje em dia, não sei se você sabe. nós dois, de acordo com o grande projeto, teríamos que tentar decifrar três ou quatro volumes, de um idioma que não foi possível reaver, não sobrou ninguém naquela região do norte. ocorre que, quando tentei decifrar livros técnicos, recorri a volumes sobre outros assuntos e descobri umas coisinhas deveras interessantes. você trairia o estado a favor do homem?

            como? professor!

            te fiz uma pergunta. tem medo da resposta?

            não gostaria de ter medo.

            não preciso mais de sua resposta. seu corpo já me respondeu com este arrepio dos pés à cabeça. quero te dizer que tenho, paralelo ao que eles chamam de grande projeto, o que eu chamo de projeto maior. preciso de sua ajuda.

            o senhor pretende trair o estado?

            não me admito traindo o homem. minha intenção é pôr em ação um plano perigoso, estou praticamente sozinho. ou você sai daqui, agora, e me denuncia, ou fica e me dá a resposta em um minuto. vou preparar um chá.

            saiu e me deixou espantadíssimo. não fomos criados para sustos. fomos treinados para evitar tremores anti-econômicos. não sei quanta eternidade estive ali, parado, aterrado, como se fosse um pequeno animal diante de um predador imenso e impiedoso. não quis pensar. eu apenas sentia. não consegui pensar.

            não precisa falar nada. ouça meu discurso até o fim. só me interrompa para perguntas. falar gasta a boca, diz o ensinamento.

            o professor sentou-se diante do chá, que ele não tomava, e continuou:

            falei dos livros. eu os tenho solicitado aos montes. e às comissões que me interrogam sobre meus objetivos, geralmente professores novatos, muitos dos quais meus antigos alunos, eu respondo com cartas curiosamente herméticas, a ponto de eles cederem a todas as minhas exigências. juntei livros num mesmo idioma para o qual não temos quase pistas, a não ser raras palavras esparsas. a ciência das línguas está muito atrasada. decifrei o idioma, só você está sabendo disso. e descobri uma quantidade de mentiras a respeito do nosso mundo.

            quem está mentindo?

            eles!

            eles?

            os jornais! você sabe que somos nós do sul que instalamos as fábricas do norte, com nossas leis e nossas ordens. eles são pacíficos e acatam nossas decisões. mas há interferências locais. assim como se se formassem anticorpos à ordem perfeita. o mais importante, porém, é que os nossos homens de estado acham que a república é um processo atrasado, que deveríamos nomear chefes simbólicos, escolher uma família digna e dela tirar cargos importantes. e seriam instituídos rituais e roupas próprias para esses dignitários, muito luxo e suntuosidade, para que os mortais comuns aceitassem com mais facilidade as decisões mais importantes.

            isso é uma loucura! ninguém aceitaria isso!

            você acredita mesmo nisso que está dizendo?

            tenho medo de não conhecer suficientemente o homem!

            pois eu tenho medo de conhecê-lo bem demais. em um ano será outro o destino do mundo. e eu não participarei de um projeto para que os telefones falem até mais longe.

            vai desobedecer?

            eu vou. você?

            o que posso fazer? estou confuso, são tantos os ensinamentos...

            ensinamentos! condicionamentos para rato! direi daqui a pouco por que o chamei. quero antes contar de uma história terrível. de suspeitas e descobertas. não pergunte.

            e o professor continuou, enquanto os nossos chás esfriavam intocados.

            quando estava na terceira escola conheci uma professora. ela já estava velha. tinha por isso uma experiência imensa. o mais importante, porém, é que sua idade ultrapassava nosso passado histórico. não sei se me entende. ela era de antes do grande desastre.

            a queda das estrelas!

            queda de estrelas! por enquanto. não fale. conheci-a e ficamos amigos. passei a acompanhá-la nas conferências que fazia. e nos passeios aonde ia, já sentada numa cadeira de rodas, era eu quem a conduzia, conversando, aproveitando de seus conhecimentos. reparei num fato muito curioso. ela, quando falava da grande reconstrução, olhava para os lados, estranhamente, como se houvesse crianças ao seu redor. e seus dedos tremiam. um dia observei-lhe isto e ela, contraindo dolorosamente o rosto, falou, áspera:

            o meu passado não te pertence. viva exclusivamente do seu. o meu passado não me pertence.

            e depois, baixinho: tenho medo. minha razão está contaminada.

            nunca mais toquei no assunto, mas imaginava que o passado a que ela se referia, devia ser o tempo anterior ao desastre.

            certa vez eu a conduzia pelas rampas do alojamento estudantil. ela tinha falado a muita gente. estava cansada. descíamos em silêncio. subiam um professor e um desconhecido. o professor iniciou comigo uma conversa enfadonha e o desconhecido, tomando de minhas mãos a cadeira de rodas, se ofereceu para conduzi-la. ele descia e eu fiquei a olhá-los. súbito, ele soltou a cadeira. eu corri assustado pela rampa. e vi algo estranho lá embaixo, barrando o caminho, algo que brilhava. tentei alcançar a cadeira, a velha professora descia com a cabeça levantada por causa da velocidade, passou pela imensa placa de metal e sua cabeça voou para o alto, caindo a poucos passos de mim. eu estaquei cheio de pavor diante daqueles olhos arregalados que me olhavam e vi, vi seus lábios se abrirem e ela falou

            houve uma guerra!

            como posso dizer o que sinto?

            houve um silêncio difícil de ser vivido. o professor baixou o olhar molhado. continuou grave: aquelas palavras me perseguiram. os jornais noticiaram um acidente, hoje sei que não houve acidente. foi a partir daquela cabeça decepada que descobri a verdade. não houve queda de meteoros, essa queda das estrelas que inventaram para enganar a populaça. houve uma guerra terrível. quase fatal. eles destruíram todas as provas e foram acabando com as pessoas que se lembravam de detalhes.

            e como era o homem, então?

            não consegui descobrir. o material é escasso. tenho uma pequena notícia do que eles chamavam de corrida armamentista. uma insanidade. acho mesmo que esta nota foi feita após o desastre. não estou seguro.

            professor, o que devo fazer?

            você pensa em sair por aí e falar às gentes?

            eu estava pensando...

            eu sabia. cada pessoa a quem você falar é uma vítima futura. antes de explicar o meu plano, quero dizer que

            não vejo nenhuma possibilidade de conseguir alterar nada, eu sozinho contra uma estrutura organizada e rígida e poderosa. não tenho condições de denunciar, por que, para isso precisaria apresentar provas, e junto com as provas entregaria a eles descobertas incríveis no mundo da ciência, o que lhes permitiria um fortalecimento insuportável.

            que tipo de descobertas? professor.

            a dos satélites para comunicação, por exemplo. ou, imagine, uma usina elétrica movida pela menor partícula existente! são verdadeiros milagres.

            professor, o senhor privará a humanidade de tamanho progresso?

            junto com as usinas de energia foram criadas as grandes bombas da destruição. não vou trabalhar para que o homem seja mais explorado até a  destruição total. não dou mais minha cabeça para que um bando de idiotas perversos viva num mundo de desperdício e alienação, à custa do suor da maioria cabisbaixa, enquanto se prepara novamente, aos poucos e de modo irretroativo, uma nova hecatombe cheia de dor e sangue. não estou à venda.

            o senhor me assusta.

            eu preciso de você. tenho uma lista de oito bibliotecas, com os nomes de doze volumes importantíssimos. você vai levar cartas minhas a estas bibliotecas. você tomará os volumes e desaparecerá com eles.

            eu não sei se terei coragem.

            você tem essa noite para pensar. é preciso destruir essas pistas da ciência de antes da grande guerra, ou nos arriscamos a deixar em perigo a humanidade. diante de tal possibilidade, você acha que vou cuidar de ligações telefônicas a grande distância? tenho prontas as cartas e as passagens de trem. os aviões não voam mais em dias de semana, não sei se você sabe. todas as bibliotecas estão no sul, os volumes foram comprados por nós. e você fará um vôo transatlântico apenas.

            e depois de tudo isso feito?

            eu dou conta de mim. não cairei nas mãos deles. você resolve por você. ninguém vive o meu pedaço, diz o ensinamento. quer dormir aqui? tenho uma cama extra, às vezes fico estudando toda a noite.

            fiquei. talvez de medo de ver gente. não queria caras em torno da minha indecisão. que noite longa foi aquela! as caras vieram perturbar meus sonhos, eu me levantava, acendia a luz, olhava aquelas duas xícaras com chá frio, olhava aqueles papéis em línguas desconhecidas e pensava nos segredos monstruosos que eles escondiam. e lembrava do bruxo que os desvendara, dormindo tranqüilo num outro cômodo, talvez não. e eu podia me aliar àquele bruxo, por pensar mais profundamente no homem, talvez não. era preciso acreditar nele e quando eu percebi esta necessidade e me perguntei se acreditava nele, uma voz forte soou dentro de mim: sim! eu preciso acreditar que ele está certo!

            quanto ódio cabe no coração do homem?

            qual o tamanho do máximo medo suportável?

            de que poço sem fundo nasce a decisão do desafio?

            eu não odiava os homens que manipulavam verdades, estas pobres criaturas não me interessavam. eu odiava os fatos.

            o meu medo não era da morte execrável. era do que meu ato podia representar para a história do homem.

            eu decidi desafiar.

            queria que minha história saltasse até esse meu momento do aqui onde estou preso. sinto porém que preciso contar de minhas viagens e de minha insônia. viajei duas semanas por diversos lugares, fui bem recebido porque levava a esperança de um progresso e de um conforto cheios de sedução. e ia recolhendo os livros e os juntava na bagagem. ninguém se opôs, ninguém percebeu. eles se perdiam no miolo de sua inflexível ordem. eu viajava durante a noite, para não perder tempo. via pelas janelas escuras paisagens correndo em direção ao meu passado. sabia que cada viagem era sem volta. meu grande momento se precipitava em minha direção, eu apenas cumpria minha decisão. e durante o dia eu vagava sonâmbulo pelas ruas dos lugares, no meio das pessoas de mesma cara. meu medo não me ninava, não conseguia dormir de dia, o medo não acalenta jamais o coração sonolento. fiz, finalmente, meu vôo transatlântico. tomei o trem, ainda noturno, para atingir a última biblioteca, onde os dois volumes remanescentes me esperavam. lá, fui atendido por uma jovem alta, de rosto magro, negra de olhos imensos. ela leu minha apresentação, levou-me a um estranho cômodo cheio de papéis e máquinas quebradas, como se fosse um depósito. falou baixo, depois de fechar a porta:

            o professor foi preso. estão à sua procura. eu sabia que você vinha. fique aqui até que eu volte.

            e saiu, me deixando entregue ao suor, à febre e aos olhos que queriam estalar de ardência e ao coração que despencava escadaria abaixo. eu caí num canto e fiquei. pensei em por fogo à minha mala e destruir tudo ali mesmo. me arrependi por não ter feito isso antes. ficariam, também os dois últimos volumes, à disposição de uma possível tradução futura. eu estava extenuado.

            ela voltou mais tarde, me levou pela mão por salas escuras. eu tropeçava. ela me abraçou.

            que fim me espera agora?

            estendeu-me sobre um leito feito no chão. eu chorava. ela tentava me tranqüilizar. eu chorava mais.

            eu trouxe os dois livros que você queria. eles não sabem quais são os livros que vocês buscam. não vão desconfiar, fique tranqüilo.

            como descobriram?

            o professor teve uma crise de vesícula e precisou ser operado. a anestesia o fez delirar e ele falou uma língua estranha e depois falou de um plano de destruir certos livros, citando o seu nome. de madrugada fugiremos. há uma casinha abandonada perto daqui, iremos e queimaremos tudo.

            por que você se meteu nisso?

            não sei, não sei, não sei.

            estivemos abraçados mas ainda não foi aquele calor que me fez adormecer. eu, quantos dias e quantas noites sem dormir? eu estava zonzo, começava a me sentir a ponto de perder o equilíbrio. tinha a impressão de que teria alucinações.

            alta madrugada, saímos. ela tinha embrulhado os livros fatais, deixamos lá todo o resto. se o professor estava certo, eu tinha comigo tudo que se relacionava com as descobertas que ele fizera. caminhamos por ruas desmaiadas, paradas, pesadas. fora da cidade, encontramos uma minúscula casa, um só cômodo. entramos e nos instalamos ali. deitamo-nos num canto, eu prestes a explodir de febre e medo.

            você tem medo? por que está fazendo isto por mim?

            não sei, não sei, não sei.

            nosso abraço me deixava quase morto, tão cansado eu estava. e em meio ao delírio não percebi o exato momento em que aquele estranho sono virou sonho e o sonho virou amor. não me sentia inteiramente eu, mas me sentia profundamente vivo e era como se houvesse mil corpos juntos ao meu, me envolvendo, me queimando, me reconfortando, eu sentia estrelas tomando conta do meu corpo, luzes que corriam alucinadas dentro de mim e houve uma explosão de gozo e felicidade e abri os olhos e vi diante de mim o rosto incrível de uma divindade mais bela que todas as madrugadas e mais antiga que o tempo e aquele rosto me sorriu e eu tombei pro lado e um doce sono me carregou em suas ondas mansas.

            acordei algemado. tentei me levantar mas tinha os pés amarrados. havia soldados ao meu redor.

            onde está ela?

            lamentamos muito. houve um acidente. vimos a fogueira de longe e viemos a ver o que acontecia. ela queimou diversos livros, não deu para salvar nada. quando nos viu, quis correr e se esconder, tropeçou e caiu com o rosto em cima das brasas. não vai morrer, parece.

            e o professor?

            que professor?

            e eu estou aqui preso, transferido que fui para a capital do sul. a qualquer momento eles entram e me levam, pois que devo morrer a morte execrável. soube que o professor se matou, ingerindo um veneno que um seu auxiliar fez chegar à sua cela. soube que os livros realmente foram queimados. e que ela não recebeu a pena de morte mas ficará presa a vida inteira.

            e enquanto eu escrevo todas estas coisas, eles entram, me falam do momento   chegado e começam a me preparar. eu paro de escrever mas meu pensamento é livre e eu posso continuar a pensar. e eu penso que estou caminhando e que não gostaria de enfrentar aquele tipo de morte tão bárbara. e me levam e me preparam. no centro da praça está armada a guilhotina. e eu, amarrado, sou deitado ao longo da máquina fatídica, a morte execrável exige que eu seja deitado de costas, com o pescoço sobre o cepo e a cabeça voltada para o alto, para que eu veja a lâmina com seu fio feroz e seu brilho fulminante. tenho amarrados o corpo e as pernas e uma faixa cinge minha testa, segurando-a firme. mas, assim é a morte execrável, tenho os braços livres e posso, no momento em que o desejar, puxar a corda que fará descer a lâmina. assim, é. preparado que sou, noivo da morte, ficam os soldados um curto tempo em torno de mim, como que esperando meu ato heróico. as pessoas passam e param, não as vejo mas sinto suas presenças, seus calores, seus olhares e ouço murmúrios que voam pelos ares, saídos de trás de seus dentes. eu não vejo se não a execrável morte, a lâmina afiadíssima em frente a meu olhar. as crianças se excitam, eu as sinto excitadas, um pouco de terror, um pouco de piedade, um pouco de medo, um pouco de fúria, por que se excitam tanto assim os pequeninos? se eu estivesse segurando uma dessas mãozinhas, que mensagens entenderia dentro do tremor de seus dedos? quanto tempo hesitarei, antes de puxar a corda? ou me deixarei aqui, como a maioria dos condenados, até que a fome e a sede me eliminem? suportarei toda a espera? por que desafiei os homens e não ouso desafiar a minha vida? sei que não há esperança, a morte execrável deve ser cumprida até depois do fim. então, que espero? minha cabeça desenha dentro de mim um braço que se move e puxa a corda, mas como quero ver o depois, meu braço não se move e não puxo a corda. eu fecho os olhos e vejo aqueles olhos imensos diante de mim, minha primeira, última e única manhã de amor. e me disse o soldado que ela caiu com o rosto nas brasas e se queimou. e devo me ocupar disto, agora? e com quê deveria me ocupar? e estarei no limiar de quê? e quantas vezes, enquanto penso estas palavras, quantas vezes penso também a sensação da lâmina caindo e minha cabeça sai pulando e eu falaria com os olhos arregalados eu estou vivo eu estou vivo as crianças estão excitadas se eu esperar demais meu braço não agüentará se levantar e mesmo que eu queira dar fim à tortura da sede e da fome eu não mais conseguirei eu tremo e vejo diante de mim um sol que queima meus olhos as crianças estão excitadas percebo que repito coisas repito frases inteiras mas é como se eu pensasse para dentro, para o fundo e eu domino o tempo eu inexisto nele ou eu super-existo a ele e é noite e a escuridão não fala de fantasmas mas de um terror que diminui aos poucos no delírio resolvo pensar até o fim e o frio diminui e como era, como era o homem, então, professor? não consegui descobrir, o material é escasso. e como era o homem então antes daquela guerra terrível e eu me ponho a divagar e eles vão surgindo à minha frente, criaturas etéreas feitas de sonho e sopro com suas vestes coloridas e seus olhares sem nenhum ódio e eles se sorriem e compartilham das coisas comuns e suas casas são simples e sua natureza é tranqüila e todos se respeitam e o fruto da terra é comum e as crianças são filhos de todos os adultos e as mulheres são mães de todas as crianças e são pais de todos os pequenos todos os homens e os velhos descansam diante do respeito dos mais novos e os mais novos crescem amparados pelo respeito dos adultos e as pessoas se falam e se amam com liberdade e nenhuma liberdade é maior do que a liberdade do outro por que eis que todos desfrutam da mesma liberdade e o fardo dessa liberdade é a própria vida, pesada e sem sentido, sem sentido se se busca outro sentido para a vida que não seja a própria vida, pesada se não se sabe eliminar a dor supérflua e aquele mundo meu já desapareceu porque eis que eu falo de sentido de vida e vida com dor e a vida antiga não devia ser vida de dor e não se devia buscar um sentido para ela eu deliro e me confundo estaria certo o professor ao dizer que não conseguiu descobrir como era o homem de antes? e como era o homem de antes? professor! e se eu me engano e desenho anjos no lugar onde viviam demônios e eis que aqueles homens que se destruíram quase que totalmente, deixando-nos apenas um pequenino legado que tentamos aperfeiçoar, estaria contaminada já nossa herança? estaria nosso mundo já envenenado com as sobras daquilo que foi o homem anterior? esse homem que bem poderia ter sido um demônio e eles se olhariam com desconfiança sempre e sempre se mentiriam entre si e os grandes explorariam os pequenos e os pequenos temeriam os poderosos que se utilizariam de palavras doces para que o fruto amargo fosse engolido sem se saber que estava cheio de peçonha e as pessoas se iludiriam entre si com amores vãos e amizades supérfluas e talvez até se pudesse dizer que aquele homem antigo se odiasse tanto e tanto que chegasse a ter medo de si mesmo e seria ele sim um eterno sofredor porque não teria tido a paz e a sorte de descobrir que felicidade é não sentir dores que não foram feitas para a gente nem alegrias que não nos estão destinadas e que cada um se houvesse apenas com seu quinhão de dor e alegria e se eu tenho minha lágrima e tão-somente a minha lágrima e se eu sorrio o meu sorriso e apenas o meu sorriso então dar-se-á que poderei dizer que não vivi em vão e como era mesmo o homem de antes da guerra pobre professor o senhor conseguiu destruir os doze livros com a ciência mais avançada e no entanto isto não significa que não mais haverá guerras professor professor não é o progresso que faz a guerra mas é o homem que faz a guerra pobre criatura fazedora de guerra sofredora e obstinada que não aprende nunca e que visões são estas fantasmas ou sombras estou morrendo e nada mais é que um grande sono que vem de mansinho vai apagando mas a vela resiste e eleva a chama com violência minha cabeça volta à lucidez há uma lâmina seria isto que sinto lucidez eu vejo coisas que sei que não existem há um homem todo amarrado com cordas e ele puxa um grande carroção lá atrás perdido na neblina e há figuras no carroção e as figuras são uma mãe silenciosa com seu ridículo manto azul cor do céu e uma morte e um tempo de cara negra segurando um relógio sem agulhas e uma virgem com o livro da ética nas mãos e nenhuma figura se move o homem não suporta o peso há cordas amarradas à minha cabeça e meu corpo e minhas pernas apenas as mãos e braços livres que significa estar aqui dia e noite e outro dia onde estou e as pessoas são enormes e pedem que eu dance conforme aprendi na primeira e última e única escola eu sou muito pequeno e tenho medo corro até minha mãe ela me toma nos braços mas não sorri e penso num túnel às avessas para entrar andando para trás voando para trás a fumaça abre um buraco me puxa e eu chego a uma nave imensa vermelha cheia de sangue eu quero ficar tranquilo há um terremoto lá fora eu devo ser puxado novamente eu diminuo e diminuo e diminuo tudo cresce e desaparece não sinto frio nem dor nem medo não existe frio não existe medo o que existe é o que não existe eu não sou o tempo está parado para todo o eterno eu não-eu eu-não