MISSA SACRATÍSSIMA

Introitus

Fechem-se todos os livros sagrados!
Calem-se todos os sacerdotes!
Apaguem-se as luzes dos sacrários!
Que se derrame nos ladrilhos do chão consagrado
     as águas abençoadas!
Cubra-se os santos com os panos negros!
Esvazie-se o trono santificado!
Aos cães e porcos as oferendas
    e que se lacrem os portões de todos os templos!
Silêncio!, cânticos que querem ofender
     os ouvidos divinos!
Sosseguem!, pernas que querem dançar
     as danças propiciatórias!
Suspensas as lâminas dos sacrifícios!
Pão da fome passageira
    e vinho da pequena embriaguês!

Quieto, tudo!

Silêncio, todos!

Parem!

Não é verdade que o homem vem fazendo
     deuses à sua imagem?
Teço, eu, então, agora, a imagem
    do meu novo deus!
Que seja mais do que à minha imagem!
Mas à imagem do Homem!
Sacratíssima pretensão!
Sacratíssima ousadia!
Sacratíssima humildade!
Que esse deus à minha imagem me ajude
    para ser ele mesmo
    concebido em justiça!

Fecundado em coragem!
Fermentado em força,
    gerado entre a cabeça e o coração;
    para ser parido sem luzes
    nem glórias;
mas já com a simplicidade
    de um dia que nasce
    ou de uma chuva que se acalma!
    Devagarzinho,
    sem ritual,
    sem grandes murmúrios;
    e
    principalmente
    sem nenhuma dor.

Chega de dores!
Chega de sofrimento!
Chega de deuses exigentes
    com cruzes e lâminas
    e mortes e nirvanas!

Calem-se todos os deuses sádicos!
Caiam todos os altares ensanguentados!
Quebrem-se as imagens terríveis
    dos monstros sanguinários
    escondidos atrás de
    doçuras inexistentes!

Eis que surge, como o raiar
    de um pequeno momento,
eis que surge, espumoso e molhado,
com alguma luz nos olhos
e ligeiro tremor nas pontas dos dedos...

Ei-lo que avança a passos amedrontados
mas cheios de dignidade!

Ei-lo lento que vem,
    sem fúria no coração
    nem fogo no olhar.

Eis o Homem que chega!

Eis o Homem!

Não o gigante disposto a doar sua vida
mas a criatura feita para viver!

Eis o Homem!

Não o príncipe pronto a negar
    todos os prazeres
mas o ser que sente!

Eis o Homem!

Não para curar enfermos
    mas, se possível,
    para consolá-los
    e, se preciso,
    para ser consolado!

Eis o Homem!

Não para guiar nações
mas para ser um entre todos!

Eis o Homem!

Não para justificar céus e reinos
    mas aquele para quem
    jamais,
    e nunca,
    e em momento algum,
    nenhum fim justificará
    nenhum meio!

Eis o Homem!

Eis o Homem!

KYRIE

KYRIE ELEISON.
CHRISTE ELEISON.

    
Eu te saúdo, amigo!
Eu te recebo, irmão!
Não seja eu jamais o teu senhor
    nem me ajoelhe eu nunca a teus pés!

Troquemos dores e alegrias.
Compartilhemos do mesmo amor!
Se houver ódio em teu olhar,
    que eu possa aplacá-lo;
e que você consiga adoçar
    a fúria do meu coração!

Não tenha pena de mim!,
    que neste reino
    não há infernos.

Apenas procure compreender!
Que, em troca, tentarei
    respeitar os teus silêncios
    e me calarei a cada vez
    que você baixar os olhos!

Que minha imagem não perturbe
    a paz de teus sonhos
    com a ética de ontem!,
nem venha a te exigir
    posturas impossíveis
    com a ética de amanhã!

Que seja minha imagem
    apenas alegria no teu coração!
Que, em troca, tentarei,
ao lembrar de teu sorriso,
    me fazer feliz!,
e estremecer de leve
quando teu olhar
vier ferir com seu brilho distante
a memória de meus dias quietos.

Que haja sempre a mesma fé
quando eu te abrir a porta
ou quando você me acenar da janela!

E que, a cada manhã,
às nove ou às dez,
quando nossas palavras voarem
    pelo ar
    de boca a ouvido,
    de boca a ouvido
seja renovada a imorredoura esperança
    de te dar minhas forças
    e de receber tuas forças.

Não te ajude eu a carregar tua cruz
nem você venha a suportar a minha;
mas que tenhamos condições
    de desfazer cada um
    a cruz do outro.

E para as cruzes indestrutíveis
dessas piadas de mau gosto do destino,
desse humor negro da vida...
para estas nos bastem sorrisos
    e olhares
    e apertos de mão
    e abraços
que fortalecem
e nos tornam indestrutíveis.

Eu te saúdo, amigo!
Eu te recebo, irmão!
Como um igual!

Não que nossas forças sejam sempre semelhantes
ou paralelas as nossas fraquezas!
Mas assim como se hoje e amanhã
e depois e depois e depois,
somadas as tuas coragens
    a minhas covardias
e minhas ousadias
    a teus medos,
seja todo o resultado
    a média de duas vidas!

Não menos!
Não mais!

Eu te recebo, amigo!
Eu te saúdo, irmão!
Não há senhores aqui
nem fiéis agora!

Apenas liberdade
ante liberdade!

Que o amor com amor se pague
    e o ódio se tente compreender!

Amigo, irmão!

Eu te saúdo e te recebo!

Não tenhamos jamais piedade
    um do outro

que nesse novo reino,
nesses novos dias,
não há infernos!

Amigo! Irmão!


GLORIA

GLORIA IN EXCELSIS DEO.


Glória na luz que ilumina
    e se estende
    permitindo passos e buscas!
Glória maior na treva
    que ansia
    por luz.

Glória na verdade que ensina
    e permite
    crescer!
Glória maior no erro que incomoda
    e pede
    verdade.

Glória no perdão que redime e lava
    alma
    e coração!
Glória maior no pecado
    que exige
    perdão.

Glória na coragem que enfrenta
    e constrói
    novos mundos!
Glória maior no medo encolhido
    que degenera
    em coragem.

Glória na justiça que iguala
    e nivela
    todas as dores!
Glória maior na injustiça
    que é avó
    da justiça.

Glória nos céus que resplendem
    em glórias e glórias!
Glória maior nos infernos que existem
    pra que haja
    glórias.


CREDO

CREDO IN UNUM DEUM.


Credo!

Creio em você, creio no teu gemido
    pequeno
quando te separam de tua mãe
    chorosa.
Creio em você, creio no teu ódio
    crescente
quando começa a abrir os olhos
    pro mundo.
Creio em você, creio na tua angústia
    mordaça
quando percebe a própria impotência
    aflita.
Creio em você, creio na tua fúria
    que baba
quando você se lança contra os moinhos
    de vento.
Creio em você, creio na tua dor
    física
quando recebe as pauladas dos cães
    do sistema.

Credo! Credo!

Creio em você, creio na tua saudade
    que mata
quando te empurram de casa e te fecham
    os portos.
Creio em você, creio na tua impaciência
    daninha
quando te trancam no quarto de uma só
    janela.
Creio em você, creio na tua morte
    escondida
quando te levam pro campo e te enterram
    sem flores.

Credo! Credo! Credo!

Creio na tua fome e no teu roubo.

Creio na tua dor e na tua arma.

Creio na tua herança e no teu erro.

Creio na tua vida e na tua morte.

Credo! Credo! Credo!

Credo!

Creio em você, creio no teu sustinho
    miúdo
quando te empurram à força a papa do
    supermercado.
Creio em você, creio na tua lição
    decorada
quando te elogiam e te espetam a medalha
    de lata.
Creio em você, creio no teu caminho
    traçado
quando você percebe que este caminho
    já havia.
Creio em você, creio no teu estômago
    torcido
quando você se olha no espelho e sente
    desprezo.
Creio em você, creio nas tuas núpcias
    prontas
quando você se entrega a este viver
    indefeso.

Credo! Credo!

Creio em você, creio no teu trabalho
    de escravo
quando você se vende em troca do uísque
    supérfluo.
Creio em você, creio no teu destino
    frustrado
quando você percebe que é um destino
    sem volta.
Creio em você, creio na tua morte
    rezada
quando te levam pro campo e te enterram
    com flores.

Credo! Credo! Credo!

Creio na tua fome e no teu desejo.

Creio na tua dor e no teu silêncio.

Creio na tua herança e no teu tédio.

Creio na tua vida e na tua morte.

Credo! Credo! Credo!

Offertorium

Homem, filho de Homem!
Que tenho eu para te dar
    que também não queira
    pedir a você?

Não posso te dar a vida,
a vida não posso te dar.
Que é o único que tenho.
Mas posso te dar amor!

Não posso te dar a morte,
a morte não posso te dar.
Que não dou o que não tenho.
Mas posso te dar amor!

Não posso te dar meu choro,
meu choro não posso te dar.
Que sem ele eu me esvazio.
Mas posso te dar amor!

Não posso te dar meu riso,
meu riso não posso te dar.
Que sem ele eu não choro.
Mas posso te dar amor!

Não posso te dar meu coração,
meu coração não posso te dar.
Que sem ele eu viro pedra.
Mas posso te dar amor!

Não posso te dar meu braço,
meu braço não posso te dar.
Que o direito já está alugado
e o esquerdo é preguiçoso.
Mas posso te dar amor!

Homem, filho de Homem!
Que vai fazer com tanto amor?

Me dá um pouquinho pra mim?


SANCTUS

SANCTUS, SANCTUS, SANCTUS.


Santo, Santo, Santo!

Sagrado é o nome de deus!
Sacratíssimo é o Homem com nome!

Santo!

Sagrado é o deus do fogo que queima!
Sacratíssimo é o Homem
    e sua queimadura
    que ensina que o fogo queima!

Sagrado é Cronos, o tempo infinito!
Sacratíssimo é o Homem
    e sua vida breve
    e curta
    e transitória
    que não deixa tempo
    para dois erros
    porque é uma só vida
    em um só tempo!

Sagrado é Brama, a eterna sabedoria!
Sacratíssimo é o Homem
    com sua finita ignorância
    que queima,
    devora,
    incomoda,
    impele
    e sustém!

Sagrado é Buda, que atingiu o nirvana!
Sacratíssimo é o Homem
    que, pequeno Nada,
    sonha com o grande Tudo.

Sagrado é Zeus, senhor dos raios e das chuvas!
Sacratíssimo é o Homem
    que desafia o corisco
    e acorrenta a chuva
    por cima dos tetos!

Sagrado é Jano, o de duas caras!
    o deus de começos
    e de finais,
    com seu templo:
    portas abertas na guerra,
    portas fechadas na paz!
Sacratíssimo é o Homem
    que tem todas as caras;
    as caras dos homens
    e as caras dos deuses:
    os mortos,
    os vencidos,
    os esquecidos,
    os que se foram
    e os que nunca virão!

Sagrado é Odin, senhor das vitórias!
Sacratíssimo é o Homem
    que perde
     e teima
     e perde
     e insiste
     e perde
     e volta
     e perde
     e grita
     e perde
     e uiva
     e perde
     e morre!
     mas nunca é destruído!

Sagrada é Iemanjá, dona dos mares!
Sacratíssimo é o Homem
    que se afoga
    e torna ao mar
    e o domina
    e morre de novo
    mas o reconquista.

Sagrado é Jeová!
Santo! Santo! Santo!
Sagrado é Jeová,
    o dos dez mandamentos!
Sacratíssimo é o Homem!
Santo! Santo! Santo!
Sacratíssimo é o homem!,
    o de todas as desobediências!

Sagrada é Nossa Senhora, mãe de deus!
Sacratíssimo é o Homem,
    pai do Homem!
Sagrado é Cristo, filho de deus!
Sacratíssimo é o Homem,
    filho do Homem!

Santo! Santo! Santo!
Homem impotente!
Santo! Santo!
Sagrados são os céus
    paraísos da eterna bem aventurança!
Sacratíssimos sejam os infernos da vida!,
    com tanta dor
    e tanto  ranger
    e tanta convulsão,
porque essa é a quota do Homem
    e é com essa porção
    que ele traça o seu destino
    e é dessa parcela
    que aprende a tirar alegria
    e é com tais migalhas
    que vem a levantar seu paraíso!

Sagrada é a misericórdia
    que compreende!
Sacratíssima é a rebeldia
    que dá corda ao Homem!

Sagrada é a vida eterna!
Santo! Santo! Santo!
Sagrada é a vida eterna
    que joga para depois do depois
    nossa mirrada esperança!
Sacratíssima é a vida breve!
Santo! Santo! Santo!
Sacratíssima é a vida breve
    que exige o aqui
    e impõe o agora!

Santo! Santo! Santo!
Sagrado é o nome de deus!
Santo! Santo! Santo!
Sacratíssimo é o Homem com nome!

Santo! Santo!


Benedictus

Benedictus, qui venit in nomine Domini!


Bendito seja o maldito
    por má boca!
Bendito seja o mal-visto
    por mau olho!
Bendito seja o mal-ouvido
    por má orelha!
Bendito é o Homem que sofre!

Benedictus! Benedictus!

Bendito seja o mal-encarado
    por má consciência!
Bendito seja o mal-amado
    por mau amor!
Bendito seja o mal-julgado
    por má toga!
Bendito é o Homem que luta!

Benedictus! Benedictus! Benedictus!

Bendito seja o mal-tocado
    por maus dedos!
Bendito seja o malquisto
    por mau coração!
Bendito seja o mal-dado
    por má vontade!
Bendito é o Homem que vence!

AGNUS DEI

AGNUS DEI QUI TOLLIS PECCATA MUNDI.


E agora,
o que resta de nós?,
Homem-deus!

E agora,
o que sobra pra nós?,
deus-Homem!

Você não é o cordeiro de deus!
Que não há nesse reino
deus que seja pastor.
Que onde há cordeiro e pastor
há lobos!

Você não tira os pecados do mundo!
Que não há nesse mundo
pecados a ser tirados.
Pecados a ser tirados
não são pecados!
Quem tirará os pecados
    dos tiranos,
    dos grandes ladrões
    e dos opressores?
Quem tirará os pecados
    dos que entregam,
    dos que vendem países?
Pecados a ser tirados
não são pecados!

Você não tenha piedade de mim!
Que ter piedade de mim
é me atirar num inferno.

Cordeiro de Deus?,
que tira os pecados do mundo?,
tenha piedade de mim?

Não!


Ite missa est.

Mal não me faz, agora,
    se se abrem livros sagrados!

Mal não me faz, agora,
    se sacerdotes falam!

Mal não me faz também
    se se acendem as luminárias
    e bentam-se as águas!

Cubra-se a nudez dos santos descobertos
e que se assente a velhice no velho trono!

Mal não me faz, não faz!

Escancarem-se as portas de todos os templos
    pra que se receba oferendas
    e que venham
    cânticos
    e danças
    e que se reze missas
    brancas,
    vermelhas
    ou negras!

Mal já não há!

Eu te despeço, Homem!

Tua hora acabou!

Dorme no meu sono
    pra não ouvir
    da confusão do mundo.

Tentei te criar à minha imagem
mas não domino a minha imagem!
Sei que há dor e luta!
Sei que há riso e paz!

Deus de uma só missa!

Homem,
amigo,
irmão!

Ite missa est.


Curitiba, 22 de fevereiro de l982.

Atualizado em ( 24 - 10 - 2013 12:37 )