Alma desdobrada, capítulos 263, 264 e 265.

 

263.

          deu-se, pois, que esse príncipe perdeu o medo de entrar na gruta onde ele sabia existir um demônio.

          e era uma vez, que ele desceu     

          e desceu

          e desceu.

          e percebeu que os urros eram apenas imaginação de seu medo antigo. que havia mugidos, havia murmúrios, talvez até gemidos, de uma criatura, possivelmente horrenda, mas que estava encarcerada e presa e sem movimento.

          e ele desceu mais

          e encontrou um duende.

          e era muito lindo aquele duende.

          verde, com chifres, com orelhas de sátiro, rabo, um corpo de velho, mãos em garras, muito macias. um corpo flácido, mas gostoso de pegar. bom de abraçar. e tinha pés de lagarto, ternos pés de lagarto, fofos. e um sexo de menino, que não assustava.

          e grandes tetas caídas, como de uma velha.

          mas os olhos, os olhos! os olhos desse duende eram tão iluminados e de tanta piedade e de tanta sabedoria e de tanta vida! e eram calmos.

          e o príncipe perguntou a ele: por que durante tanto tempo eu tive medo de você?

          mas o duende não respondeu.

 

264.

          escrevi meu terceiro livro num período demorado. foi o livro mais custoso de minha vida: cristo, cristo, cristo.

          é que não conseguia desenvolver a segunda narrativa sobre cristo. comecei-o no rio e terminei-o em curitiba. é frágil e delicado. tem mesmo marca de ser livro de iniciante.

          gosto da última história, ainda que muito superficial.

 

265.

          qualquer música? qualquer?

          não, nunca! que seja sempre aquela que venha pescar dentro de mim os peixes por que me quero habitado.