Alma desdobrada, capítulos 191, 192, 193, 194, 195, 196 e 197.

 

191.

          bruno, bruno, sempre te chamei o flagelinho de deus. e, brincando, dizia para todos que você, dois dias após ter nascido, teve três convulsões e nunca mais parou.

          com isto, queria dizer a todas as gentes como você é ativo e contente e feliz. mas nada disso é necessário.

          você, flagelinho, canta impostando a voz e empesteia o mundo em volta com sua espontânea alegria.

          você, flagelinho, corre para mim e quer ganhar colo, compridão do jeito que está, e seus braços enormes se enrolam em volta de mim, como serpentes de vida.

          você, flagelinho, se perde no meio de seus animais e passeia entre eles e conversa com eles e volta para casa com as botas imundas e a camisa com tanta sujeira quanto são os cachorros que temos na ocasião.

          você, flagelinho, rodeia a gente grande, à procura do que comer. se a gente grande está ocupada, você abre um enorme pedaço de pão, passa margarina e sai comendo, dando pedaços avulsos aos bichos que sempre te rodeiam.

          você, flagelinho, desaparece por um bom tempo, tendo ido pescar, e volta feliz e falando alto e tira do bolso os cinco peixinhos que pescou, amassados, encolhidos, secos, um verdadeiro troféu de vitória.         

          você, flagelinho, dribla o banho muitas vezes. sua atividade não te dá tempo para limpezas. então, meio cansado, você se deita sobre os almofadões e ouve nossas conversas e repete perguntas já respondidas ou inventa perguntas irrespondíveis.

          você, então, flagelinho, vai se entregando lentamente ao sono. eu te mando fazer xixi, mas nem sempre você atende. eu te cubro então. na hora de subir eu te acordo e te levo bêbado ao banheiro. você segura o pinto e fica um tempo paradão, dormindo em pé, cambaleando. eu insisto e você relaxa e urina.

          daí, que te pego no colo e te levo pra cima e te aconchego na cama. se é pra dormir junto do leonardo, por causa das visitas, e se ainda o sono não é absoluto, você tenta uma briguinha por espaço. mas logo logo você dorme, flagelinho, e não há coisa mais bonita no mundo do que o seu soninho.

          no dia seguinte, quase sempre quase sempre, você o primeiro a acordar.

 

 192.

          T..., quem é você?

          o que você veio significar na minha vida?


193.

          te amo, menino. diferente, tranquilo, sem dores. mas descobri esta noite que o que sinto muito forte por você é uma danada vontade de dar uma trepada com você; descobrir o seu prazer mais obscuro, exigir a indefensibilidade do teu orgasmo, provocar nos seus dentes o ranger total, despertar o furor das tuas unhas, morder o interior de suas coxas e tornar impossível de segurar o teu gozo mais tremendo.

          não penso em mim, criatura. despertar o animal sagrado que existe no fundo de você, seria o meu orgasmo maior. eu estaria, sacerdote, prestes a qualquer sacrifício paradisíaco.

 

194.

          não sei por que escrevo. escrevo para não ficar louco ou para aumentar minha loucura? me parece assim como ouvir música: ela me purifica mas me faz sofrer.

          se me pergunto se seria possível não escrever, direi que não conseguiria: a sensação que tenho, agora, é de que cresceria tanto minha tensão que eu não resistiria. e se escrevo, todavia, sei que crescerei em desespero. porque eis que estarei mexendo em dores e emoções.

          confuso.

 

195.

          constante

          o amor,

          constante

          a dor.

 

196.

          nunca mais vi clara. soube que se casou com um bom homem, bom pai, e que vive uma vida feliz.

          o que é viver uma vida feliz?

          clara tem dois gêmeos e vive em teresópolis. 

          nunca mais vi clara. desmanchada ficou dentro de mim, como um fantasma de memória. que veio ela fazer no meu mundo? me mostrar sua calcinha ensanguentada? não tivesse aquilo acontecido, seria eu hoje diferente? ou sua calcinha de sangue se fincou nas carnes do meu entendimento por minha própria opção? não fosse clara, não fosse um espelho mostrando sua menstruação, é provável que meu destino escolhesse qualquer outra marca de desagrado feminino para transformá-la em uma eumênide de fúria e espanto a perseguir meu medo.

          tinha medo e criei um monstro a justificar o meu medo. clara, com sua calcinha sangrando, no espelho do armário que eu limpava, apenas ofereceu o modelo ao meu monstro.

 

197.

          é muito estranha a minha convivência com a superstição. não acredito, mas a persigo. brinco de adivinhar o futuro, faço propostas aos números, jogo com perguntas ao baralho. a superstição é minha religião consciente.

Atualizado em ( 18 - 08 - 2015 14:05 )