Alma desdobrada, capítulos 181, 182 e 183.

 

181.

          B... me anunciou que estava grávida. foi uma conversa rápida, fria, baixa, despida de qualquer véu que viesse a dourá-la, enaltecê-la, até que fosse cobri-la com pudor. falou que tinha certeza de que era meu.

          isto apenas passou por mim, voando. estas palavras não traziam a coroa da verdade, eu sabia. eram palavras cativas, subjugadas por intenções desconhecidas, desfilando à frente de uma proposta insincera. assim eu sentia. assim sei que foi, ainda hoje.

          vamos tirá-lo, não?

          claro. estas coisas custam caro.

          dá-se um jeito.

          sabia um não meu filho. o jogo continuava. consegui algum dinheiro, ela anunciou o dia, algo se complicou, foi para o hospital e eu fui visitá-la.

          palavras vão e voltam. mais palavras vinham dela a mim do que iam de mim a ela. de mim partia mais um silêncio machucado, sabia que estava lidando com uma delicada mentira.

          aqueles orgasmos experimentais teriam fecundado alguma desprometida criaturinha? eu sabia que, apesar de ela insistir que só estava dormindo comigo naqueles dias de nossos encontros, dizendo ainda que nem com o marido fazia nada, eu sabia, eu sentia, intuía, que eu não era o único a penetrar naquele pequeno universo tão sem mistério.

          houve, então, em minha vida, um pedaço de amores desamados que resultaram num feto seguramente não meu e que findou num aborto não assumido por mim, por ter ouvido uma voz que vinha do nada mas que me dava a certeza de que eu não fizera um filho. depois disso, silêncio sem desolação.

          esquecimento.

 

182.

          caim me perturbou bastante. achava-o o máximo do livro, minha tragedinha. ficava emocionado quando o relia, imaginava o texto encenado, com um cenário metafísico e um acompanhamento musical em que cada personagem seria identificado por um instrumento. desenhava cenários estranhamente vazios, imensos.

          lembro que, ao escrever o texto, procurava trocar a ordem das palavras, procurando uma nova rítmica dentro da prosa. mais tarde, relendo, senti que o procedimento resultava muito artificial.

          recentemente pensei em destruir caim e protesilau. reli-os mais uma vez e resolvi que não. são frágeis, delicados, nada espontâneos, mas significam aquele meu momento passado, transformado em pedacinhos minúsculos do meu hoje, vínculo com o perdido para sempre, que não se perderá jamais.

          meu segundo livro foi protesilau.

 

183.

          quantos anos tenho? nenhuma idade!

          aprendo o mundo. se nalguns momentos sou velho e relembro antigos experimentos, cuja memória já está meio enevoada, noutros, sou um aprendiz do feiticeiro mundo. não tenho medo. quero ter medo de ter medo, não de viver. isto de viver abrange só o continente conhecido? ou aventuremo-nos aos implacáveis mares da louca fantasia? quem sabe, são tão só mares, como os de cá.

          "plus ultra"! "semper"! não para o "nec".