Alma desdobrada, capítulos 171, 172, 173, 174, 175, 176 e 177.

 

171.

          bestial quero minha sexualidade, para alimentar o meu amor com meu instinto mais vivo.

          bestial quero meu coração, para resistir impune ao destruidor conceito de piedade.

          bestial quero minha boca, para provar do sangue do meu amado.

          bestiais quero minhas unhas, para acordar no seu corpo a fúria dos mil e um delírios.

          bestial quero meu sexo, para atormentar o meu amado com o desejo mais prepotente do que o deus do apocalipse.

          bestial quero meu corpo, para dar pousada às sereias da sua loucura.

          bestial quero minha embriaguez, para que ela crie tumulto mais forte do que o som de todas as trombetas de todos os anjos.

          libertei as bestas que jaziam encarceradas no fundo do meu coração e eis que atingi a terra da felicidade!

 

172.

          Z..., eu te amo.

 

 173.

          homens do mundo!, por que vocês desfilam nessa tristeza toda, as bocas fechadas, os corações engaiolados e os sexos apagados de seus desejos maiores e afogados de seus orgasmos insustentáveis?

          por que vocês não gritam o último grito?, que viria a ser o seu primeiro grito!

          que estão esperando?

          continuar nessa sua morte?, mesmo depois de mortos?!

 

174.

          levanto lentamente aquilo que se transformou em minha casa. ponho o telhado, martelo portas e janelas, serro detalhes que não são imprescindíveis mas me são imprescindíveis. tudo está torto, rústico e mal acabado mas assim é que me agrada porque quero-a minha, limitada pelo mal acabado que atinge minhas mãos. a perfeição, aqui, está em tê-la sonhado, tê-la ousado, tê-la transformado de sonho em casa.

          meu berço.

          meu túmulo.

          agora, já me acostumei com ela, com sua água que eu fiz subir, sempre à minha disposição, com seu cheirinho de madeira, com seus bichinhos, com sua poeira que nunca acaba, e suas frestas. acostumei-me.

          mas não de todo. no meio da noite, quando chego no escuro, acendo as velas ou o lampião, bebo água, escovo os dentes, ligo uma música amiga, me deito e me cubro...

          então, sinto que a mãe, que eu mesmo teci para mim, me toma no colo e me faz adormecer.

 

175.

          encontro na entrada do galinheiro um pequeno crucifixo de metal branco. me soa como bom augúrio, por menos que eu acredite, por nada que eu acredite. há de ter uma carga qualquer de uma qualquer energia. guardo-o no bolso, imaginando onde poderia vir a deixá-lo definitivamente. um pouco depois, encontro outro crucifixo, igual, na janela da sala. do mesmo tamanho mas de desenho diferente. a coincidência pretende me falar de coisas que não conseguiria. guardo no outro bolso, imaginando as mesmas coisas já imaginadas, acrescentando esperanças. então lembro deles no dia seguinte e os carrego na mão por curto tempo, talvez deixar um na chácara e outro no apartamento, quem sabe, um no irb e outro na bolsa. eu indecido.

          num momento de lucidez, eu concluo:

          eu me quero também primitivo, supersticioso e cultivador de mistérios que não venha jamais a compreender. mas que sejam mistérios saudáveis, não a imagem de um homem sacrificado. morto. inda que tenham dito que ele ressuscitou. ou ele não ressuscitou ou ele não esteve morto. permitirei ao meu animal interior acreditar em duendes, fadas e bocarras sanguinárias, que pretendem a consecução da vida do meu corpo mas não da crença de uma eternidade para o que não existe. seja uma primordial religião de vida viva, não o transe doentio de um povo masoquista.

          atirei-os na frente de uma papelaria de artigos católicos.

          e agora, um tanto depois, me pergunto com curiosidade: quem os teria colocado no meu espaço? com que objetivo?

 

176.

          fico pensando em torno daquilo que escrevi acerca da vulgaridade. vulgaridade ou não, seja outro o termo, isto a que eu poderia vir a chamar de ato possível. penso num de meus mais cultivados atos possíveis: a promiscuidade. ocorre dizer agora que, quando eu os perpetro, estou diante de mim mesmo. esteja eu a procurar uma vivência, considerada como necessária, através de uma criatura qualquer que eu utilize como objeto, este pobre outro utilizado não é um outro que me mostre aquilo que sou: estou só na minha busca. na minha curiosidade infantil, na minha malícia, no meu gozo.

          penso que as pessoas devem chamar a estes meus atos possíveis, de vulgaridade. não o são, para mim.

          vulgaridade, para mim, seria perpetrar tais mesmos atos diante de alguém.

          seria vulgar escrever sobre estas coisas, como faço?

          admito também a possibilidade de não considerar vulgar a participação de outrem, assumindo-a como um ultrapassar de limites. o que é possível? o que é impossível?

 

177.

          durante a minha adolescência o desejo da masturbação se transformava num grande tormento. este foi o condicionamento estúpido que o catolicismo impingiu à minha alma. preciso ser forte, tenho que resistir, não posso, preciso ser forte...

          eu acabava acordando de madrugada. eu tremia, minhas pernas se batiam uma na outra, me via vítima de uma insuportável tensão como a mais esticada das cordas. nenhum arco de violino tiraria música destas cordas e nenhum arco guerreiro dispararia flechas, que, antes disso, romper-se-ia por dentro a alma.