Alma desdobrada, capítulos 154, 155, 156 e 157.

 

154.

          houve um período de minha vida em que eu queria parar de crescer. crescer era abrir as portas a tanta coisa perigosa e desagradável! sonhava, cheio de nostalgia, com habitar a terra de peter pan. peter pan não soube me segurar em sua gruta. o deus tempo arrebatou minha alma e, através de sangramentos e lágrimas, a maioria deles camuflados e reprimidos, eu cresci. certo estava o tempo com me ter transformado em gente grande. hoje descobri que é difícil crescer, mas só o crescer me leva à terra da liberdade. terra, não gruta. terra do hoje, não terra do nunca.

          o que é isto de terra da liberdade?

          é que cada dia me sinto mais senhor do meu destino. sei que posso morrer num acidente ou perder um filho, situações que não admitem a mínima luz de liberdade. o meu dia a dia, porém, naquilo que não gravita em torno do acaso, me deixa seguro de estar tecendo opções de ser ético por conhecimento e de evitar ser imoral por ignorância.

          como eu gostava da história de peter pan! foi o único álbum confeccionado na infância que não tive coragem de destruir.

          e, no entanto, algumas vezes me sinto ainda peter pan.

          tempo, venha devagar, por favor. por favor, devagar, pra não doer tanto!

          por favor...

 

155.

          fizemos um jogo, eu e B... sinto que isto tenha acontecido: minha atração era diminuta e ela via em mim a possibilidade de me tornar um iniciado através de seu corpo. as coisas foram se combinando lentamente, me dá preguiça de contar detalhes, inda que os tenha todos na mente. deu-se, então, que um dia resolvemos que estava na hora de irmos para um encontro amoroso. você sabe onde? um amigo me falou de um hotel. nunca fui num lugar destes. pode ser amanhã? sim.

          se me pergunto agora, o que significaram para mim aqueles orgasmos, diria ainda uma vez que os recordo como se fossem complicadas masturbações que precisassem de antecedentes, tais como, fazer a corte, escrever expressivas cartas mentirosas, nas quais eu acreditava em pelo menos metade da metade, dar beijos e abraços e fingir um interesse bem cuidado, que não me alterava as entranhas.

          eu poderia dizer que foi um momento forte, que houve no coração uma concentração de vida e na alma uma canção desfraldada à força pelos vendavais. nada disto. eu me emocionava muito pouco. hoje, tanto tempo passado, depois de tantos encontros amorosos, em que luzeiros descem do espaço para queimar aquilo a que eu poderia chamar de eu, vejo que aqueles encontros não eram encontros.

          havia tão só dois corpos sem sentido, que se desnudavam lentamente, havia pastilhas de hortelã na boca. e um tocar-se discreto e um momento em que nada mais pode acontecer, a não ser a penetração e o gozo.

          se o gozo não é absoluto, não merece ser relembrado. tão melhor seria sonhar com algum outro gozo, ainda que muito pouco provável.

 

 156.

          sonho.

 

157.

          chego em casa, como é incrível esta minha casa! esquento o leite, lancho, subo, levo o lampião de querosene para cima e sob sua luz frágil eu fico brincando com o baralho. alguma música fala baixinho das dores do mundo. não quero fantasiar como criança, mas a mente caminha por caminhos que ela mesma escolhe. e eu me perco.

          a música se cala, a luz foi apagada, só o relógio baixinho indica sua presença. aos poucos seu tique-taque vai me sugerindo palavras que repetirei até adormecer. é um hábito que vem de longe. penso em palavras que sintetizem meu momento e as vou repetindo no mesmo ritmo do relógio. embriagado pelo sono, vou como que ouvindo meu próprio pensamento: e-ner-gi-a-for-ça-a-mor-vol-tai-re-shake-speare-le-o-nar-do-dos-toi-e-vski-brahms-e-ner-gi-a-for-ça...