Alma desdobrada, capítulos 46, 47, 48, 49, 50, 51 e 52.

 

046.

          de onde saíram estes adolescentes belos e sedutores a quem amo perdidamente. são eles eu? são eles meu pai? são eles meu filho? adianta saber? ou me bastaria, sempre, entregar-me perdidamente, desesperadamente, alucinadamente, desvairadamente à minha paixão? isto o que sinto, é que é o amor? o que é o amor?

 

 047.

          percorro com tanta dor e tanta ousadia as terras deste livro, para me sentir forte e adulto, mais tarde, no estrangeiro do sem-ele.

 

 048.

          ocorre também, às vezes, que não sei se o que escrevo é pérola ou cocô.

  

 049.

          quero falar, quero escrever sobre o amor. não agora, porém. fique agora o amor pendendo sobre mim, como um pêndulo pesado, mas revitalizador. fique ele adormecido no fundo do que for mais fundo dentro de mim. o que é o mais fundo dentro de mim? o fundo da minha alma? o fundo do meu desejo? o fundo do meu corpo? o fundo do meu passado?

         alma, desejo, corpo, memória, onde? em qual de vocês eu escondo aquilo que penso que é o amor? não sei o que é o amor. o que é?

  

050.

          ocorre às vezes de eu estar penetrando no mundo dos sonhos, ainda que meio acordado, e presenciar uma sequência de pensamentos que não dependem tanto de minha vontade, mas se fazem segundo sua própria ordem;

         ocorre de eu me maravilhar com a profundidade destes pensamentos, pretender anotá-los, forçar o acordar... mas não consigo retê-los, pois eles, como fantasmas da noite, desaparecem ante a luz da vigília.

         ocorre de eu às vezes perseguir, enquanto escrevo, uma idéia que se faz por si mesma, independente da minha vontade;

         ocorre, então, de eu vislumbrar dentro dessa idéia a possibilidade de uma descoberta forte e definitiva... mas, ao intentar transformá-la em frase, ela, como enigma indecifrável, se perde no meio de palavras sem sentido.

  

051.

          você está em petrópolis, as meninas brincam, maurício, o sobrinho menor, se diverte perdido em sua própria infância, geraldo já pertence ao mundo dos adultos. você se senta no meio de todas aquelas revistas cheias de sedução. elas mostram fantasias exageradas, com plumas e pedrarias. você recorta pedaços dessas fantasias e cola sobre figuras desenhadas, formando você suas próprias fantasias. só o teatro, muito mais tarde, te daria possibilidade de pertencer a este mundo nunca codificado. o teatro e a literatura. a arte em geral. você vai descobrir também que a fantasia pertence a todos os homens. se você a acolhe com mais carinho, isto apenas te faz diferente dos outros homens. não pior.

  

052.

          ser diferente é apenas ser diferente. ser diferente é ser igual a si mesmo. o problema é dos outros.

Atualizado em ( 23 - 07 - 2018 22:27 )