Alma desdobrada, capítulos 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14.

 

 007.

          como contar de minha tensão antes de nascer leonardo? a tensão da vida. eu me sentia presa da emoção maior da paternidade: a espera, a esperança, o sonho se fazendo gente, a coisinha crescendo lenta e virando aquele que viria um dia e que cresceria, um pouco debaixo de minhas asas, um pouco debaixo das asas do mundo, aquele que receberia de mim pedaços de cruzes de martírio e cruzes de martírio receberia do mundo. eu esperava cheio de uma angústia redentora. eu me preparava para ser pai. eu pensava nomes, figurava olhos e pernas, sorrisos e planos. ele ou ela, quem seria? nunca aparecia inteiro dentro de uma idade, era um projeto dinâmico, bebê menino, bebê menina, filho, não acabado, nunca acabado...

 

 

008.

          para onde vai toda a energia do mundo? ficaria aqui à nossa volta?, tampados que somos no planeta por uma descomunal quantidade de vácuo? que fazer dessa energia? períodos de guerra deixariam na região gemidos e espantos espalhados pelo ar? e se eu danço, fica ao meu redor mais que o meu suor de felicidade? seriam as plantas capazes de segurar, reter um pouco dessas formas de energia? o mesmo se daria com montanhas e mares e neblinas? seria a geografia suficiente para isolar pedaços do mundo?, criando aqui e ali ilhas de dor e oásis de música?, conforme o sorriso e a dor dos que lá estão? e dar-se-ia que as gentes que se visitam poderiam levar sorrisos ou lágrimas?, mitigando um pouco as dores alheias com sua alegria virulenta ou contaminando felicidades estrangeiras com sua dor de contágio? por que tantas perguntas? eu responderia, do fundo do coração, sim, a todas elas. sim!

  

009.

          Z..., com tua fotografia na mão, o olhar paradíssimo num momento carinhoso que se perdeu, ele sonha seu sonho de amor. fica fácil, fica tão fácil!, como fica fácil!, tecer em torno de sua figura toda uma mitologia primordial. ele te ama. não sabe como, nem até que ponto, nem até quando. saber que ama, é tudo. é um amor que cresce algumas vezes e quer arrebentar nos olhos os diques que seguram o choro. o choro dele agora é muito bom, é puro, é simples, é sempre e tão somente emoção. sua fotografia, estranha criatura, provoca desejos confusos no fundo do meu eu. eu te vejo, deitado na minha sala, com suas pernas presas numa calça muito justa, seu peito forte e seus braços macios. então, sobe em mim o desejo inevitável de te beijar a boca e me perder no meio do mais apertado abraço e sugar o teu sexo, meus cabelos presos por tuas mãos cheias de febre, e eu queria beber teu gozo. e tua foto me mostra dois olhos jovens e profundos, envoltos num olhar que eu conheço. desejos tenho de construir impérios e destruir impérios, tal é o meu amor, construir no alto da montanha da vida o templo magnífico e colocar lá no sacrário a tua figura viva e ficar te olhando até o momento em que você me dissesse que estava na hora de ir embora.

 

 010.

          preciso cuidar da minha liberdade! preciso te ensinar o peso da minha liberdade. não me permito escravizar-me a você, se não até onde eu possa gozar da liberdade para desfazer essa escravidão. você é jovem e belo e inteligente e tem consciência do quanto te amo. não dá pra dizer que você me usa. nunca! você me dá provas de que me quer ouvir e ver e saber de mim. mesmo escondido de mim como você vive, com estudos e planos, você me tem. sinto que você é forte o suficiente para não destraçar o seu caminho feito com disciplina e vida; sinto, porém, também, que você me oferece fatias grossas do tempo que é seu. sinto que recebo atenções sutis e que você, como um menino bem menino, me traz cotidianamente o relato de suas alegrias passageiras. sinto que nos comunicamos.

  

011.

          edivaldo, cunhado, comprou a obra completa de william shakespeare. folheio os livros, curioso, vejo os desenhos de que gosto muito. os personagens me sugerem fantásticas histórias, teseu, júlio cesar, péricles, cleópatra e tantos bobos e tantos reis e tantos outros tantos. li a tempestade, estranho, difícil de acompanhar, cheio de criaturas promissoras. leio a comédia dos erros, rio alto e os parentes me olham desconfiados. aquele mundo aos poucos desfila diante de mim. dou por mim já dentro dele, envolvido por tais figuras cheias de uma condensadíssima vida, com suas fúrias e suas malícias e suas belezas.

         não saberia dizer por que me apaixonei por shakespeare. naquele momento, de tudo o que me envolvia, era ele o que mais me resolvia.

         não havia enigmas dentro de mim, que eu pudesse enunciar. tão só confusão e caos. e apareceu alguém disposto a não decifrar nada; mas oferecendo a possibilidade de me colorir mais minhas cores e aguçar minhas pontas e serenar mais meus sonos e a torvelinhar um tanto as torrentes de minhas perturbações. a fazer mais dia o dia e a noite mais noite. a dizer à razão: seja razoável! e ao instinto: persiga-se.

         e ao coração: seja!

         é claro que assim escrevo agora sobre aqueles dias.

         naqueles dias eu apenas lia e era feliz porque lia.

 

 012.

          estou num cinema e vigio portas e sombras. a tela mostra cenas violentas que não entram em mim. vigio portas e sombras. ele vigia portas e sombras. e um impulso o leva ao mictório. os olhares dos que se cruzam são carregados de cumplicidade. gostaria de saber descrever estes olhares: medo, desejo, culpa, dor, excitação, que coisas são essas que passam pelos olhos dos que se cruzam? a cada dia, novas experiências, todas elas iguais no fundo negro da alma. há os que se chegam, furtivos e encolhidos, devorando o corpo do outro com olhos de alucinação; há os que se aproximam impudicos e se exibem, segurando os sexos já endurecidos; há os que pedem com humildade, os gestos assustados e toda a atenção concentrada nos menores ruídos e nas mais fugidias sombras; há aqueles machos, que, diante do olhar insistente, fingem nada perceber mas balançam o pau e o arregaçam diversas vezes e o enfiam lento dentro da cueca e abrem a calça para melhor ajeitar a camisa, acariciando-se; há ainda os rígidos que nem percebem o que se passa à sua volta, urinando indiferentes e saindo aos assobios.

         se houve encontro de olhos, porém, e se os olhares compreendem que há buscas escondidas, cravando garras no medo e o transformando em desesperada coragem, então, coisas outras acontecem.

 

 013.

          estou preso no apartamento da ubaldino do amaral. preso porque falta coragem para sair à rua. ouço música, como ouço música! os sons se sucedem e levantam a poeira de minhas emoções. tchaikovski, beethoven, brahms, wagner, os sons me pegam e me trituram. quero estar às vezes indiferente a eles, pego um livro, leio frases que nunca se acabam, mas as músicas entram como anzóis. não sairão sem levar pedaços e deixar marcas de sangue. que posso fazer com tanta dor e tanta alegria? o silêncio é um anzol pior do que todas as músicas porque no silêncio sou obrigado a conviver comigo mesmo e eis que tenho medo daquilo que sou. tenho dezoito, dezenove, vinte, vinte e um anos. ainda não acabei de crescer. sou um menino cheio de medo. apenas um esquecido órfão, cheio de medo. a música é um bando de cordas presas num alto que desconheço, penso eu que elas pendem sobre um pântano aterrador e assassino. eu ligo a música e fico me balançando, seguro por suas seduções nunca completadas, eu flutuo fora das águas, acima das águas. tenho medo do silêncio porque o silêncio me jogará sobre o lodo. eu me afogaria nessa morte, pensava. não sabia, ainda não tinha descoberto que não havia lodo sob mim, mas tão somente água da vida. diferente de outras águas, se fosse o caso: por enquanto, apenas diferente. não sabia, não me fora dada ainda a conquista de perceber que qualquer vida é vida, desde que viva.

 

 014.

          qualquer vida é vida, desde que viva.