apolo e jacinto, 5.

tendo visto o menino, ao acordar, teófilo teve o pressentimento de que estaria salvo. poderia esquecer todo aquele horror recém vivido e começar a pensar em outras coisas. o horror atingia ainda sua sede de conflitos, mas como um eco, um reflexo; uma sombra. tudo parecia estar distante, agora. diante das revelações de luis, ele se agarrava ao menino como quem precisa de um cúmplice. mas não!
Mas não! Não posso trazê-lo a isto! É muito novo, medroso, não sabe da vida. É apenas um menino. Seu olhar brilha malicioso, ele sorri ao falar certas coisas, mas não tem conhecimento de nada! Ou já estaria num ponto em que isto não espante, não tumultue, não perturbe?... Não sei, não sei...
luis.
o quê?
você visitou todas as galerias?
visitei.
descobriu alguma coisa mais?
não vai mandar me bater?
vamos combinar o seguinte: qualquer que seja a coisa que você faça, nunca será castigado. está bem?
está.
só queria que dissesse a verdade. ninguém vai saber de nada, sim?
sim.
depois que você saiu de lá, veio direto pra biblioteca?
bem... eu percorri tudo. descobri outras passagens, acho que são secretas. veja o que tirei delas. mostrando quatro ferrinhos. darão ótimos estiletes.
você os tirou?
não podia?
não. fui eu que os coloquei. se não, descobrirão o nosso segredo. sabe que temos um segredo?
qual?
estas passagens secretas. vamos fazer o seguinte: você corre lá e recoloca os ferrinhos. depois, volta aqui e conversaremos sobre as armas que tenho na caixa. você vai?
vou.
só mais uma coisa. ninguém poderá saber o que faço aqui. está bem? não poderão saber que eu vigio os presos. vá depressa. podem bater na porta e é você quem deveria abri-la.
É rápido como um gato. Não devia tê-lo provocado. Parece, porém, que ele também me provoca. Poderia calar-se. O olhar dele é estranho. Não sei que rumo toma minha vida. Parece que algo acorda dentro de mim, sacudindo tudo, não entendo nada, não posso ceder, não posso ceder. Malditas chicotadas. Não sei por que fui fazer esta loucura por uma simples... uma simples... por que algumas palavras teimam em se esconder de mim?, não sobem, não desabrocham... Ele não deve entender nada disto, não serei eu quem vai ensiná-lo. Que amigo seria eu... Os casais dormem agarradinhos... Poderia perguntar quando você viu castrarem o boi... Será que dói muito? Não, não, não. Não posso enveredar por esse caminho. O que já conheceria ele? E quando poderei me levantar de novo pra poder vigiar aquele demônio? É sujo como um porco, fedorento, imundo, espirra muito longe... Não devo pensar nisto. Pedirei uma cítara para Luis, poderei ensinar-lhe o que sei. Toca, luis. Viu?, hans!, como já progrediu! É um aluno brilhante! é um aluno brilhante!, E eu a falar sozinho... Esse menino me atrapalha... amanhã, creio que poderei ir lá. amanhã. E eu a falar sozinho, e eu a falar sozinho. A cítara se originou na grécia, luis, quando viu castrarem o boi na hora do banho poderia pedir que me ajudasse mas tenho medo ele já me viu nu mas tenho medo de... o pensamento tropeça... Tem coisas que não é bom pensar... Às vezes as palavras escorrem...                     devagarzinho...                    e é como se entre elas um outro universo de palavras corresse paralelamente confusas e complicadas               castrar e ele me viu nu e o banho                  não sei se devo                as outras é que significam alguma coisa não estas palavras que saem como se a gente estivesse falando                               e porque é que às vezes a gente pensa falando e outras vezes são só imagens que sobem como agora se fechar os olhos vejo ele sorrindo os casais dormem agarradinhos pensei os casais dormem agarradinhos mas não foi pensado como se falasse porque parecia que eu ouvia o luis enquanto eu o via e ele riu e falou que os casais dormem agarradinhos repita luis você se cala sorri vai até as armas quero mudar de posição segure minha mão como se o estivesse vendo e já não são palavras que penso mas o tato de sua mãozinha dentro da minha e que palavras estariam correndo junto com estas queria fechar os olhos de novo e vê-lo e ouvi-lo mas o que você faz aqui quer me matar não você apenas vai pagar caro ter deixado o lança me comer vou fazer o mesmo com você não quero que me mate pensa que não sabia que você me vigiava lá do alto é impossível sim tenho que pensar diferente porque ele não me descobriria lá no alto então eu vou fazer a mesma coisa com você mas se ele fosse brando talvez nem doesse mas eu via como ele empurrava estupidamente não quero machucar você afinal você é o senhor do castelo poderei libertá-lo depois agora que você terminou eu gostaria de dizer que ele fugiu e trancá-lo para mim e luis pergunta o que você perguntou luis ele está aqui porque é perigoso e decidi vigiá-lo mas mandaria que ele pusesse a roupa não quero que luis o veja sem roupa ele é tão manso e pequenino mais parece um anjo e não deverá saber de nada depois que eu ficar bom ele entenderá porque o prendi aqui porque quero você só pra mim ninguém sabe que você está aqui mandei fazer esta gaiola e te trarei comida e se você me machucar eu te mato e quando você toca cítara as cordas de minha alma cantam não não não não poderei falar assim com ele o boi corria mas a gaiola quebrou-se mais devagar acabou luis não é luis é ele não quero você no meu pensamento não quero estes pensamentos de palavras mas que adianta se vejo se fecho os olhos e vejo aparece ele inteiramente nu com esta coisa enorme e dura não faça isto monstro não vê que é apenas uma criança eu te mato tome tome sangue fedorento sangue maldito. morra! morra!
respirava aflito.
morra!, demônio. Onde está ele? Acho que dormi. Ouvi um barulho... Estas visões... Deve ser da febre. Deve ser da febre! Me doem as costas. Quando ele chegar, pedirei o remédio e ele me ajudará a tomá-lo, segurando a vasilha comigo.
olhou a saída secreta.
luis. por que está aí? o que houve? está chorando?
nada... nada...
o que houve?
nada.
venha aqui. não posso ir até você. o que foi? por que está chorando? o que aconteceu?
luis chegou-se e encolheu-se, soluçando. teófilo tirava suas mãozinhas do rosto e enxugava as lágrimas, com as costas de sua mão, afagava os cabelos despenteados.
não chore. o que aconteceu?
nada. nada. 
não precisa falar, então. não chore mais. deixa eu limpar sua roupa, tem uns sujinhos aqui. não chore, não chore.
o abraço o aqueceu, teófilo sentiu arderem as costas, os olhos se encheram de lágrimas, não, não chore mais, não precisa falar nada. sentiu uma luz entrando dentro dele, cegando a alma, destruindo tudo, vamos, vamos, assim está melhor, você não volta mais lá, nunca mais, nunca mais. sinto dores, me dê aquele remédio.
mas a mãozinha de luis não fez o efeito que tinha desejado; mais parecia o toque de um animalzinho alvejado, trêmulo, frio, encolhido, lívido, soluçante. luis, aos poucos, aquietou-se, ajoelhou-se no chão, sentou-se, colocou a cabeça no colchão e contemplava o vazio. teófilo acariciava seus cabelos. parecia que uma estrela de diamante se aninhara em seu coração.
fechou todas as passagens?
fechei.
você demorou.
silêncio.
os olhos de luis lacrimejaram de novo. escondeu o rosto.
olhe pra mim. não vou mais falar sobre isto. você quer descer?
não!, não! falou rápido. e um pouco depois: não quero ver o vô. posso ficar aqui?
claro! deite-se. vou contar uma história. tá?
luis acenou um sim perdido. ajeitou-se no colchão ao pé da cama.
era uma vez um príncipe do norte. o pai morreu e a mãe casou com o tio, irmão de seu pai. então apareceu o fantasma do pai...
e manchas brancas fecharam os olhos de luis e teófilo continuou tranquilo a desfiar fatos como quem rezasse um terço e luis ouvia cada palavra e se detinha Ele falou fantasma e é então o fantasma do pai e se o fantasma do meu pai aparecesse e quem é essa moça, moça, moça, moça, e uma conta ultrapassada era um fato já perdido, desses que não voltam mais e teófilo observou que as palavras ditas nunca mais voltarão como se uma fosse filha da outra e a anterior morre para deixar viver a seguinte e é a sequência das palavras que cria a idéia como os fatos dessa história que precisam acontecer na ordem certa.
onde é mesmo que eu estava?
silêncio. luis dormia, encolhido. teófilo, a muito custo, esticou o braço, pegou o cobertor junto aos pés de luis e o cobriu.
encolheu-se e também se cobriu.
Luis, Luis... meu menino... Precisei me deitar sozinho. Luis, estou gostando de você de uma maneira aterradora. Tenho muito medo...

Atualizado em ( 30 - 11 - 2013 13:41 )