CAIM 
drama em dois atos

Nota: Esta peça tem uma história curiosa. Escrevi-a em 1960, eu tinha então 18 anos, e foi meu primeiro trabalho pretensamente literário. Dois ou três anos depois, reescrevi-a, estendendo os diálogos. Encontrei-a por acaso em abril de 2012. Os diálogos soavam ridículos, porque eu usara o "tu" e forçara a ordem das palavras na maioria das frases, tentando criar um ritmo de poesia. Resolvi refazê-la. Lancei mão de um recurso inédito e estranho: traduzi tudo, literalmente, para o Esperanto e, abandonando o texto original, do Esperanto traduzi para o português. Em essência, nada foi alterado, mas cinquenta e dois anos é tempo... acabei introduzindo 12 linhas de diálogo. Acho que o resultado mantém o sabor juvenil.


Personagens: Adão, Eva, Caim, Abel, A Jovem.

Primeiro ato.

EVA: O grande luminar se escondeu atrás dos montes; um véu escuro cobre a face do crepúsculo. Estou só... sinto frio... olho o céu. O que fazer, uma mulher como eu, frágil, se não olhar a dança louca das nuvens? Os colossos se sacodem ébrios e o vento forte leva até todas as grutas o barulho dos gigantes. O Eterno se agita acima dos céus e está irado com o mundo. Vejo que os fogos de Deus iluminam as montanhas distantes e os confins da terra, espalhando incêndios e terror. Somos pequenos, nós, solitários mortais... Tenho medo da cólera de Deus. O seu fogo é mais forte do que o do grande luminar, e mais terrível... por isso mesmo, é mais belo. Tenho medo...
ADÃO: (entra) Ah! Veja como dançam. Veja a confusão... e tremamos nós dois sob o poder dos fogos dos céus...
Esta noite a lua branca não subirá. Eis o ritual da tempestade. O Deus furioso novamente se volta contra o homem. Logo as águas molharão os vales e os rios transbordarão.
EVA: Eles estão no campo. E os fogos são rápidos, mais rápidos do que os pés alados dos anjos.
ADÃO: Nossos filhos? Nos campos há grutas...
EVA: As grutas acolhem as feras e os répteis selvagens.
ADÃO: Nos seus braços repousam os cajados pesados, que afugentam as feras.
EVA: Como afugentar? Só um deles tem o cajado que conduz as ovelhas ao pasto. E o que pode um cajado nas mãos de um jovem?
ADÃO: O que dirige o golpe não é a vontade do braço mas a força da alma. (Eva estremece). O que foi?
EVA: Meu corpo estremeceu de frio. Será mesmo o frio? É como se eu ouvisse uma voz que me chama. Um grito distante... sufocado... estranho... Não compreendo...
ADÃO: Vamos esquecer os filhos. A cólera de Deus grita contra nós. Precisamos tranquilizá-lo. Vamos agradecer ao Eterno. Vamos comer o pão da terra... e sentir o gosto de nosso próprio suor.
EVA: O gosto de nosso próprio pecado...
ADÃO: Grande Deus! Nós, mortais, pedimos em oração a sua proteção. Julgue-nos, Senhor, e nós silenciaremos... Tenha piedade de nós, Senhor, na sua infinita misericórdia, e nós nos inclinaremos diante de você. Dirija suas orelhas às palavras de minha boca e guarde-nos em sua eternidade. O nome de meu Deus eu proclamarei através de montes e desertos; e os que o ouvirem, temerão. Os descendentes de nossa gente ajoelhar-se-ão diante de sua glória. Grande Deus, julgue-nos e nós silenciaremos. Tenha piedade de nós e nós nos inclinaremos diante de você.
EVA: Grande Deus! Quando receberemos novamente o paraíso? Quando será tirada de nosso rosto esta marca terrível de sofrimento e mal? O que é necessário para que tudo recomece? Até os animais medrosos fogem de sob nossos olhos... Quando nos veremos novamente sem malícia como os animais dos bosques. Ninguém será mais infeliz do que nós, porque ninguém terá a lembrança do paraíso... Nós... Nós choraremos pelo bem perdido até quando o encontrarmos novamente... ou... até quando desaparecermos de alguma maneira... E mais terrível é nosso lamento... porque de nós germinou a vergonha humana e o humano sofrimento... Grande dor... Mas não! Não!
Do campo está chegando nosso pecado. Vejo que nosso primogênito se aproxima. Traz ofertas ao Senhor. Com sua própria força e cansaço arou a terra e obrigou-a a frutificar. De seu próprio trabalho traz o alimento para nossos corpos enfraquecidos. (entra Caim) Filho, filho querido, aproxime-se. Assim... Assim, desde sua infância... e eu vejo como você cresce e como crescem os seus cabelos... e desde sua infância você me beija as mãos e me sorri... e eu o olho e sorrio... venha mais perto, filho querido... Preciso olhar seus olhos... e, assim como faço todos os dias, olhando seus olhos eu bendigo o pecado... Venha... O que está acontecendo? Está escuro! (um raio) Seus olhos!... meu filho! Seus olhos!...
ADÃO: Onde está aquele que guarda o rebanho? O que fez com ele? Sinto que a serpente maléfica aumenta a nossa dor...
EVA: Filhinho! Seus olhos!... E você, o que está acontecendo com você? (trovão)
ADÃO: Comigo? Uma força estranha me domina...
EVA: Você tem no rosto e no olhar o brilho... Você não é mais você mesmo!
ADÃO: O que fez com o seu irmão?
EVA: Toda a força do universo está dentro de você! Uma estranha força entrou em você...
ADÃO: Um cheiro de sangue se espalha pelos campos...
EVA: Apesar de serem seus olhos, não são seus olhos...
ADÃO: Diga o que fez com o outro!...
EVA: Apesar de ser sua voz, não é sua voz...
ADÃO: A inveja criou raízes no seu peito!...
EVA: E apesar de serem suas as palavras, não são suas palavras...
ADÃO: E como um anjo negro você a cultivou... Onde está seu irmão Abel?
EVA: Pare! Espere a chegada do outro!
ADÃO: Onde está seu irmão Abel?
EVA: É possível que estes urros sejam humanos?
CAIM: O que sei eu? Sou porventura o guarda de meu irmão?
ADÃO: O que fez você?
EVA: Oh, grande Eterno!
ADÃO: A voz do sangue de seu irmão grita a mim desde a terra! E agora você será maldito sobre a terra...
EVA: O rebanho volta sem seu pastor!...
ADÃO: Maldito seja!... (um raio)
EVA: Filho! Meu filho! Meu filho! (Caim se esconde atrás de Eva)
ADÃO: (trovão) Maldito seja você desde a terra que abriu sua boca para beber o sangue de seu irmão. Quando você trabalhar a terra, ela não mais te dará sua força...
EVA: Pare! Este também é seu filho!
CAIM: O ódio me venceu! Perdão! Não sabia, nunca sabia o que estava fazendo...
ADÃO: Você! Assassino!
EVA: Oh, você, meu menino... Deus meu, quero chorar pelos dois... Qual dos dois lamentarei? Qual dos dois merece minhas lágrimas e a quem amarei ainda?
ADÃO: Quer amar o que destruiu nossa própria carne? Quer amar o que derramou nosso sangue, o sangue de si mesmo?
EVA: O mal está em algum lugar... Mas sinto que ele é infeliz, isto não pede castigo...
ADÃO: Pede justiça! Em busca da justiça o homem percorrerá todos os caminhos... Deve julgar a si mesmo e a aqueles que não são capazes de serem justos...
EVA: Somos nós capazes de saber o que é justo e o que é injusto? O que sabemos sobre nós mesmos?
ADÃO: É justo apagar uma vida?
EVA: É injusto esquecer e perdoar? É a ignorância que peca em lugar do homem mas é o homem que sofre as consequências. Oh, Eterno, tenha piedade!
ADÃO: Filho infeliz... Também eu queria te ver inocente. Mas sinto que é preciso punir... o castigo... o que fazemos aqui se não ser punidos? É necessário fazer justiça para que o mal pereça...
EVA: Tentemos compreender...
ADÃO: A compreensão pertence a Deus! O que sabemos sobre isto? O bem e o mal existem... Deve o homem punir o homem?... A justiça é Deus... (raio)
EVA: Deus é misericórdia...
ADÃO: Gritarei ao Senhor por justiça e meus caminhos se encherão de luz! Oh, meu filho... Você se matou a si mesmo matando seu irmão... Você se destruiu e destruiu a lei da natureza... Você destruiu nosso mundo... Você... Você me destruiu... (trovão)
EVA: Deus, grande Deus! Novamente a voz terrível está saindo de sua boca! 
ADÃO: Você!...
EVA: Conheço esta voz, conheço esta voz que mata mais rápido do que a espada de ouro do arcanjo... 
ADÃO: Você!...
EVA: Esta voz que fere mais do que os espinhos dos arbustos do caminho... 
ADÃO: Você!...
EVA: E castiga mais do que os gemidos intermináveis dos ventos tempestuosos... Você delira!
ADÃO: Vagabundo e fugitivo você será sobre a terra! O mal que existe em você será seu único refúgio!... os animais dos campos e os pássaros do céu se esconderão de você e fugirão assustados...
CAIM: Vou então me refugiar em todo o mal que existe. Mas diga a mim: Quem colocou dentro de mim a víbora infernal? Por que sou culpado? De onde veio o mal que me domina?
ADÃO: Está dentro de você mesmo, infeliz, mais vil do que as bestas da floresta. Germinou em você, como planta venenosa que nasce no chão que a hospeda. Você é culpado porque permitiu que ele entrasse no seu peito...
CAIM: Justiça, justiça... Deus deu fé a meu irmão e a recusou a mim. Apreciou os carneiros queimados e recusou os frutos da terra!...
ADÃO: Você disse que não tem fé!
CAIM: Tenho culpa, se não tenho fé? Não sou criatura dele?
ADÃO: Sim... Mas deu-te a liberdade de escolha entre o bem e o mal...
CAIM: Liberdade entre o bem e o mal mas criou-me mau! Não me sinto culpado diante de Deus nem diante dos homens! Quem tem a culpa?
ADÃO: Maldição sobre você! Você é culpado!
CAIM: Você aproveita a fraqueza humana! Esta fragilidade fortificará Deus. Quanto mais o poder dele crescer diante da nossa nulidade, mais nós nos anularemos. Não aceito este Deus.
ADÃO: Basta! Não te aceito, nem como filho nem como ser humano... Cubra de poeira essa boca impura! Faça arrebentar esta cabeça profana! Vagabundo e fugitivo você será sobre a terra! Esconda-se, esconda-se depressa entre as feras, desapareça! Deixará após si um rastro infame... Envenenará o ar com seu respirar maldito... Esconda-se nos antros mais profundos da terra, atire-se em abismos, busque as cavernas e expulse de lá os animais apavorados... eles mesmos fugirão...
CAIM: Eu me vou... e deixo aqui esse Deus abominável... Vou sozinho... não preciso dele...
ADÃO: Maldição sobre você (Adão sai)
EVA: Meu filho...
CAIM: Eu me vou, mãe... Levarei para longe a dor e a desesperança... E no rosto a mancha deste crime... caminhar perdido e deixar um rastro abjeto... que clamará aos céus por vingança! Os seus futuros filhos me verão perdido no matagal e fugirão apavorados; e dirão entre eles: vejam, o assassino! vejam, o fratricida! Fugirei como um louco e ferirei os pés nos espinhos dos vales e dos campos... eu, que não mais terei o direito de olhar demoradamente uma flor ou sentir o seu perfume agradável... e verei o sangue espalhado sobre o chão indefeso... que clamará aos céus por vingança! Eu irei só, com a companhia que me seguirá o tempo todo, mesmo quando desejarei estar só... onde eu estiver, lá estará... minha sombra... que clamará aos céus por vingança! E o eco de meus passos... que clamará aos céus por vingança! Pobres pais, o que fiz? Destruí a pouca felicidade que tinha sobrado pra vocês... O que acontecerá agora conosco?, grandes infelizes... Meu pai, para onde foi? Pobre pai... será lembrado como um justo... Justiça... Deus... E você?, mãe querida,você que se elevou acima da própria justiça, criando o perdão... (os dois falam a si mesmos)
EVA: Deus, Deus, piedade...
CAIM: Você, que tenta compreender o homem, este estranho ser que, ébrio de uma prudência louca, age como animal...
EVA: Meu peito sufoca... Sinto sobre a cabeça o peso do mundo e dos astros... o peso do pecado...
CAIM: O que pode ser o pecado?
EVA: A carga é penosa... E longo o caminho que devemos vencer... e somos fracos...
CAIM: Onde se esconde a verdade?
EVA: O que nos espera no fim do caminho? Um jardim fecundo, como o anterior? Alguma alegria divina?
CAIM: O homem é capaz de entender alguma coisa?
EVA: Que alegria divina nos fará esquecer tanto sofrimento? Como Deus conseguirá apagar da memória do homem o que é a dor?
CAIM: Será a dor capaz de resgatar o pecado? Então, viver é o pecado! (melodrama)
EVA: Não se consegue entender nada... Percebemos que vivemos... que amamos... que sofremos... eis-nos tristes, eis-nos alegres... tudo corre como um sonho sem final... ou como águas de um riacho, ora lenta, ora veloz, e elas vão e nunca mais serão vistas... A vida, o amor, o sofrimento, a tudo devora o tempo... que, insaciável, escancara a garganta abismal e fica a espera de nossas novas experiências... e tudo rola, pedra num precipício, não volta mais... a dor segue a alegria como a noite vence o dia... e a alegria segue a noite, como a luz brilhante vem após a tristeza... Quando vamos entender alguma coisa? Por que, em alguns momentos, a alma se enche de paz e nos vem a vontade de chorar?... e em outros momentos, a alma se enche de terror e nos vem a mesma vontade de chorar?
CAIM: Nas noites de verão brilhavam as estrelas... nas noites de inverno brilhava a chuva delicada... as folhas dançavam ao vento, os frutos arrebentavam grandes e as flores perfumavam os confins do mundo... de manhã a grama brilhava nas colinas e a passarada cantava hinos saudando a luz... à tarde a fraca luz do sol brilhava atrás dos montes... os animais se aninhavam em algum lugar e a brisa pacífica ninava os seus sonos... A noite trazia ao mundo um sentimento sobre o que não tem salvação. Parecia que a dor se estampava nos olhinhos piscantes das estrelas. Tudo falava triste que o Paraíso estava perdido. Mas o homem vivia na terra, num lugar escondido... envergonhado de si e do mundo... mas ia vivendo de alguma maneira.
O filho do pecado pensa. A inveja lhe fala com linguagem tentadora. E o sangue é derramado! Sangue... sangue... O mundo agora tem um novo cheiro, desconhecido... sangue humano! E toda a maldade é irreparável... Entregou a matéria à matéria e por primeiro devolveu um homem a Deus... Deus mata... (súbito fim do melodrama)
EVA: Filho, você não sabe o que está falando...
CAIM: O pó recolhe o pó... O corpo que se movia, cheio de vida, se transforma numa pedra...
Preciso caminhar, mãe... preciso sofrer muito... o caminho é longo e eu sou fraco... mas irei até o fim, é necessário! Nada compreendo, mas vejo fácil que o caminho diante de mim precisa ser caminhado. O sol queimará meu rosto, o frio cortará minhas carnes, os espinhos e as pedras ferirão meus pés e arrebentarão minhas sandálias... irei com minha sombra... absolutamente só! E com a memória de que um dia eu vivi... e fui amado... e matei... e morri... Buscarei dentro de alguma estrela uma maneira de provar a mim mesmo a minha inocência. Quem sabe podemos desfazer tudo?
EVA: O tempo é roda que não volta.
CAIM: Será que podemos esquecer que vivemos? O que resultará de tudo isso?
EVA: O tempo é roda que não volta. 
CAIM: Sinto uma dor desconhecida... Como se alguém me dirigisse um olhar indefinido... Não há uma espécie de angústia espalhada pelo mundo? Parece que as coisas querem me dizer algo... Pra onde ir? Atrás daquele monte se escondeu o sol. Lá encontrarei a noite... Longo, longo caminho... você me levará a vales fecundos e a abismos... Vou através de você, até o fim... sentir o gosto do arrependimento... Tentarei encontrar uma nova alegria... criar um novo paraíso, feito apenas de dor e remorso... Meu... próprio... paraíso... Eu... eu... mãe, o que é a paz?
EVA: Pobre, pobrezinho. O que fizeram de você? Não quero que me deixe, quero ver você sempre... Se não, o que acontecerá, quando a tristeza da tarde derramar no peito o gosto amargo da solidão?...
CAIM: A nós, os mortais, é impossível nos compreendermos... nós, que de nada sabemos... estamos destinados à solidão por toda a eternidade...
EVA: O que pode ser mais triste do que a vida? O que significa a alegria anterior? Oh, meus filhos... A perda do jardim de Deus me fez miserável e infeliz. Depois de toda a nossa aflição, vieram os filhos... da dor veio a alegria e durante algum tempo o paraíso desapareceu da memória... encontrei-o em vocês, meus filhinhos... Quando eu ouvia os gritinhos de vocês, desdenhava o canto melancólico dos pássaros... Quando eu acariciava os seus rostos, zombava das pétalas das flores, insensíveis... Que noite sem lua é mais bela do que os olhos negros de vocês dois? Que palmeira no deserto balança ao vento mais docemente do que seus cabelos? Meu filho, o que vai acontecer agora? Para onde ir, sozinho, entre feras terríveis e tempestades assustadoras? Que caminho escolher? Em todos eles, o perigo da crueldade animal... o perigo das grutas escuras, cujas bocas abismais buscam o pé descuidado... o perigo da maldade de Deus, espreitando atrás das nuvens... Pobre filho, me abrace, me aperte e nunca mais me deixe. Beija-me, meu filho. Não, não, não quero te perder... por que te perder?... para quê?... é necessário? Não basta esquecer, perdoar e redobrar o amor? Justiça não será outro crime, se destrói o que sobrou da felicidade? O que vai fazer na noite escura?
CAIM: Vou me procurar! A solidão nos devolve a nós...
EVA: Você se achará no meio da dor? Não, não, isto eu não quero. Por que sair desse novo paraíso? Meu filho... ouço um barulho... veja, ele está voltando... Está escuro... Ele não traz alguma coisa nos braços? Sim, o que pode ser? Meu querido, ele não deve te ver... Você, expulso do meu mundo, você, criança miserável... Que me arrancassem os braços, que me furassem os olhos... a dor seria alegria, desde que eu não te perdesse... Como eu te lamento, como eu me lamento... eu, infeliz que sou... Adeus e não me esqueça, nem por um momento... Beija-me, meu filho, beija-me e vá rápido... Não esqueça... Nunca... Não te esquecerei... E todos os dias pedirei a Deus que te perdoe... E minha prece será um choro interminável... que adoçará o coração do Justo. Metade de minha maior felicidade... (Adão se aproxima) Não, isto não é verdade! Fuja rápido, antes que eu te amaldiçoe (Caim foge correndo) Oh!, se eu não te tivesse gerado, quanta felicidade! Meus filhos!... Infelizes que somos!... Meu filho! (entra Adão com Abel nos braços)
ADÃO: Este é o seu filho... Seu único filho! O mau vento da inveja soprou e a flor despetalou-se... o fruto caiu do galho... seu sopro fugiu dos pulmões, filho adorado... oh, se eu pudesse cair em lugar de você, para que você continuasse a respirar o ar da manhã...
EVA: Grande Deus... Não fomos expulsos para a luta e para a vida... viemos ter no próprio inferno! A dor aumenta e o sofrimento sempre se supera...
ADÃO: Seu rebanho extraviado pastará sozinho nos campos, filhinho... suas ovelhas não mais ouvirão o seu chamado... O eco das colinas não mais repetirá sua voz...
EVA: É verdade isto? Não parece que ele dorme? Então é verdade que você não mais vai ouvir seus pais, que estas mãos não mais acenderão o fogo das oferendas? Suas mãos estão frias, filhinho... Você se molhou?, meu querido.
ADÃO: O Senhor não receberá mais os carneiros gordos... em lugar disso, os lobos vão sangrá-los e carregá-los até suas cavernas escuras... Oh, meu filho... Não iremos mais até o riacho nas tardes quentes para ouvir o canto das águas? Não vou mais apertar sua mão para os passeios matinais?
EVA: Nós nos enganamos... isto não está acontecendo... Não é possível!
ADÃO: Não é possível! Nunca é possível mas é a verdade. Veja! Veja as feridas... Não há sangue... A chuva o lavou. E ele se foi, não sabemos para onde...
EVA: Como é fácil apagar uma felicidade... Filho... acorde... Está dormindo? Que o grande Eterno me devolva meu filho... Sua inocência está perdida... Então, pra que você foi bom? Por que você corria como criança através dos campos e soltava sua risada clara? Por que você sorriu? Pra onde foi seu sorriso? Oh, filhinho, onde se esconde o brilho de seus olhos? Você fica em silêncio... Onde está sua vozinha de ave? O que acontecerá com seus negros cabelos, que o vento tempestuoso sacudia? Seus cabelos... estão molhados... É verdade que não nos veremos mais?  (para Adão) Foi então para isto que Deus nos deu filhos? Pra amá-los e perdê-los e cair em desespero? Pra ouvir seus risos e ficar surdos aos risos? Pra sentir a doçura dos olhares e a luz dos olhares se extinguir? Pra ninar nas noites quentes os seus corpinhos delicados com canções tristes... e os corpos perderem o seu calor? Seus braços... sua cor fugiu, filhinho... seus braços estão brancos... Vou te abraçar com todo meu corpo, pra te aquecer... e nenhum fogo terá mais calor do que meu desejo em te aquecer... nem o fogo da terra nem o fogo de Deus... Deus, que criou a alegria pra que a aflição seja maior! Ele zomba de nossa pequenez e ignorância... Fomos criados pra sofrer?
ADÃO: Fomos criados pra viver. Se a vida se transforma em dor, você sabe de quem é a culpa.
EVA: A culpa vem do pensamento... O animal não é tentado. Quem nos fez pensantes?
Tudo isto é falso... nós nos enganamos... Esta flor não pode estar de todo perdida... Ah, justo e compassivo Eterno! Você criou o inferno perfeito! Nada mais é necessário pra sofrer, além do simples viver! Sua justiça me destruiu um filho... E sua misericórdia nos enche de alegria pra que tudo de repente se acabe... Quanto maior a alegria, maior é a dor que se segue... O que virá além disso? Mate-nos e destrua sua raça angustiada e infame!
ADÃO: Cale-se! Você está delirando! Oh, Deus, perdoa-nos... Dentro da dor o homem esquece sua nulidade e atira imprecações ao criador...
EVA: Se somos culpados, é porque o mal gera o mal! Ele então vai permitir que a raça inteira sofra? Oh, Eterno, oh, Eterno, extermine sua imagem de lama, que é o Homem. Atire um raio sobre a terra, para que ela se despedace. Não, nada acontece... Ele nos deixa vivos... Quer que soframos, soframos...
ADÃO: Devemos esperar... talvez vejamos novamente nosso filho... algum dia... de alguma maneira...
EVA: Ver a quem, se este é o filho que eu amo. Este é o meu filho! Depois do fim... quando o nosso respirar também se extinguir... somos mortais... e também eu me transformar... será que vou te rever? (para Adão) Ele é esta forma fria e morta e eu não aceitarei outro...
Eu me lembro, eu me lembro bem... um dia eu vi um animal morto na campina... o corpo imóvel, como uma pedra... toquei-o... não se moveu... virei-o de lado... e vi, as carnes devoradas pelo tempo e pelos vermes... As mesmas carnes que antes atraíam os companheiros... cujo cheiro se espalhava pela floresta para encontrar os semelhantes... agora exalavam um cheiro pestífero... Em volta, tudo deserto e meio morto... um pouco mais longe pastavam outros animais... indiferentes...
Oh, filhinho... amanhã você não mais será meu filho... Os vermes entrarão em sua boca e em seus olhos... despedaçarão seus braços e suas pernas fortes... O tempo molhará seus cabelos e amassará sua carne de encontro ao chão... Não aceito o destino se destino é isto... O que é a morte?
ADÃO: Cale-se, cale-se! Vamos embalar seu sono. Precisamos sofrer em silêncio...
EVA: Sofrer em silêncio!? O que significa sofrer, se não viver?, mesmo se uma curta vida! Meu filho, meu filhinho, não quero te perder, perder também você... Você ficará comigo dia e noite, vigiarei você... nenhum inseto chegará perto, nunca... Ficará pra sempre comigo... não é certo que vai ficar?
ADÃO: Impossível... Deus!, ajude-me. E você, ajude-me a carregá-lo...
EVA: De jeito nenhum! Nem você levará meu filho! Você já levou o outro... O que fez com ele? A chuva rasgará sua carne. Olhe lá fora, olhe a escuridão apavorante, veja o que fez com ele!...
ADÃO: Chega, chega! Que os céus me castiguem... Tentem agir bem... Oh, Eterno, me perdoe, porque sinto os vestígios de um outro crime... Onde encontrar a justiça?
EVA: Eu vou buscá-lo!
ADÃO: Não! Não! De algum modo o crime é resgatado pelo castigo!
EVA: Castigo em cima de castigo! Dor em cima de dor! As lágrimas atraem mais lágrimas... Isto é a vida! (para Abel) Vou esquecer tudo, pra ficar contigo!
ADÃO: Lembre-se do animal morto!
EVA: Pra quê Deus existe?
ADÃO: Nosso menino se transformará aqui... quer vê-lo nessa terrível mudança? Vamos levá-lo... Vamos colocá-lo debaixo de pedras e plantar flores em volta de seu túmulo... É melhor assim... Somos estranhos, os seres humanos... temos a capacidade de ver os que estão distantes... Quantas vezes eu estava deitado debaixo das árvores, para o cochilar da tarde, e via meus meninos brincando, exatamente como eles brincavam quando eram pequenos... Quem sabe nós os veremos... O mundo do sono é estranho.
EVA: Estranho é o mundo da morte. O que fazer agora?, filhinho. Chorar, chorar, vou chorar até que o pranto me afogue.
ADÃO: Plantaremos flores, muitas flores...
EVA: A dor me mata... Céus, piedade...
ADÃO: Não podemos morrer... Amanhã... o pão... é preciso plantar novamente...
EVA: Vou chorar e comer o pão crescido entre lágrimas... Meus filhos... A lembrança de vocês encherá de angústia a minha alma...
ADÃO: A memória é como um galho no outono... o vento sopra e a desfolha aos poucos... Suas lágrimas regarão o chão... Um dia, porém, junto com as lágrimas cairá o suor... E depois de outros dias o suor cairá sozinho sobre a terra não lavrada... Sua memória será como um galho seco. Assim... assim... o homem esquece... ai de nós se não esquecêssemos...
EVA: Não, eu não quero esquecê-los... Minha memória será um galho com duas flores negras...
ADÃO: Flores, muitas flores...
EVA: Oh, filhinho, chorarei todos os dias sobre seu túmulo... Suas flores serão regadas com lágrimas... Quanta infelicidade... O quê significa viver? Atrás de que nuvem se esconde agora o Eterno, pra não ver a nossa dor?... Este Deus que só aparece em tempestades e para receber as oferendas... E você, meu outro filhinho, onde está você?... Infelizes, infelizes, infelizes que nós somos... 
ADÃO: O dia se anuncia aos pouquinhos. A tempestade acabou... 
EVA: ...acabou... e deixou no mundo menos ruína do que a que a noite deixou na minha alma. A lua branca empalidece. Oh, Deus, é a mesma luz... é a mesma luz... mas está diferente...
ADÃO: Sim... é a mesma luz... mas está diferente!... (saem os dois, carregando Abel) 

Atualizado em ( 18 - 12 - 2013 17:07 )