A ditadura da burrice 09:

Nota: Em 1976, imaginei uma pecinha de teatro em que houvesse um velho rei, uma velha rainha, um príncipe inconstante e um bobo desaforado. A partir de um perfil apenas esboçado, faria as canções que definiriam cada personagem. Fiz a da rainha, a do rei, mas a do bobo desviou-se por um atalho inesperado, era a ditadura. Não sei se por esse motivo, a pecinha foi abandonada, tanto melhor. Ficaram os versinhos a seguir:

Canção do bobo: CANÇÃO SÉRIA, ENCOMENDADA PELO REI, FALANDO DA VIDA, DO AMOR E DA FILOSOFIA
 

Por que ter que cantar
música séria?
Se tudo o que faço
fala de mim?

A vida que eu levo
é uma miséria.
O amor não começa,
é o fim.
A filosofia
é uma pilhéria.
E o tirano tá de olho
em mim.

A vida foi presa no camarim.
O amor sempre zomba de mim.
A filosofia foi pro botequim.

Mas se o tirano pisar 
no meu calo
eu me calo,
e espero.
Não quero
perder o pescoço,
eu posso
roer o meu osso
no fosso.
Comer o meu pasto
de arrasto,
depois eu me afasto
prum canto.
Me afasto
mas canto:

Tirano, tirano, herói de pano,
tirano, fantoche varonil,
tirano da terra do céu de anil,
tirano que é o dono do covil,
tirano que empunha o fuzil,
tirano de zelo senil,
tirano que não é civil,

você vai se ralar,
em março ou abril,
na puta, na puta que te pariu,
na puta, na puta, na puta, na puta,
na puta, na puta que te pariu.
Trinta e um de março
é primeiro de abril,
na puta, na puta que te pariu,
na puta, na puta, na puta, na puta,
na puta, na puta que te pariu...

Curitiba, setembro.1976