A ditadura da burrice 05: RETRATO TRÊS POR QUATRO.


(triolé encadeado)
 
Você é muito bonzinho
sua bondade me espanta.
Bota pedras no caminho,
você é muito bonzinho.
Não deixa o vilão sozinho,
se ele cai, você o levanta.    
Você é muito bonzinho,
sua bondade me espanta.

Bota pedras no caminho
e institui a casa escura.
Mói a todos no moinho,
bota pedras no caminho.
Mata a flor mas deixa o espinho
faz florescer a incultura.
Bota pedras no caminho
e institui a casa escura.

 Mói a todos no moinho, 
faz da pátria o seu bordel.
Novas leis no pergaminho,
mói a todos no moinho.
Fere a ave, queima o ninho 
e liberta a cascavel.
Mói a todos no moinho,
faz da pátria o seu bordel.

Novas leis no pergaminho,
com congresso ou sem congresso.
Silencia o burburinho,
novas leis no pergaminho.
Doa a estopa e veste o linho,
forja na tela o progresso.
Novas leis no pergaminho,
com congresso ou sem congresso.

Silencia o burburinho
nos porões da inquisição.
Dá trator, mas vende ancinho,
silencia o burburinho.
Emprega o tio, o sobrinho
e empresta só ao ladrão.
Silencia o burburinho
nos porões da inquisição.

Dá trator, mas vende ancinho
e planta as garras da morte.
Fala aos do norte em carinho,
dá trator mas vende ancinho.
Dá o latifúndio ao padrinho,
pisa o fraco, eleva o forte.
Dá trator mas vende ancinho
e planta as garras da morte.

Fala aos do norte em carinho
mas emudece a imprensa.
Faz aperto ao colarinho,
fala aos do norte em carinho.
Adia o riso e o vinho,
semeia a convalescença.
Fala aos do norte em carinho
mas emudece a imprensa.

Faz aperto ao colarinho
e degola a liberdade.
Você é muito bonzinho,
faz aperto ao colarinho.
Gera o morcego daninho
Ratifica a orfandade.
Faz aperto ao colarinho
e degola a liberdade.

Curitiba, agosto, 1976.