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Este saite está em constante construção; contém: Projeto Gil Vicente, 44 peças, com resumos, comentários e canções que fiz para as peças (Português, Esperanto); Dante Alighieri - Vita Nova, canções que fiz para os 31 poemas do livro Vita Nova (italiano); Traduções e Adaptações (inclui O Corvo, de Poe), Conta outra Vó (histórias infantis, Português, Esperanto); Peças para fantoches; Trilogia Cética; Canções Infantis Brasileiras em Esperanto. A Espécie Humana (romance), O Dia sem Nome (romance), Apolo e Jacinto (romance). A intenção é alimentá-lo semanalmente./ Ĉi paĝo konstante ricevas ion; Ĝis nun: Projekto Gil Vicente (Portugale, Esperante) kun resumoj, komentarioj kaj kanzonoj, kiujn mi verkis por la teatraĵoj; Dante Alighieri, Vita Nova, kanzonoj por la 31 poemoj de la libro Vita Nova (itale); Tradukaĵoj kaj adaptaĵoj (Portugale); Teatraĵoj por pupteatro (Portugale); Rakontu alian anjo (infanaj rakontoj, Portugale/Esperanto); Skeptika Trilogio (Portugale/Esperanto); Brazilaj Infanaj Kanzonoj. La Homa Specio (romano, Portugale, Esperante), La Tago sen Nomo (romano, Portugale, Esperante), Apolono kaj Hiakinto (romano, Portugale, Esperante) Mi intencas aldoni ion ĉiusemajne.

Alma desdobrada, capítulos 247, 248, 249, 250, 251, 252, 253 e 254.

Alma desdobrada, capítulos 247, 248, 249, 250, 251, 252, 253 e 254.

 

247.

          estou deitado, espetadíssimo de agulhas. tentando que a acupuntura me livre da dor que sinto por Y... da confusa sensação de sofrimento sem saber por quê. sinto que se clareiam os labirintos de minha alma e, deitado e espetado, vou imaginando um balé intitulado viagem ao centro de mim mesmo. um homem desce aos porões de seu mundo interior e descobre que o terrível demônio que lá morava era todo um benfazejo duende, macio bebê paternal. mais tarde, no gravador, falei a história do príncipe duende.

 

248.

          era uma vez um príncipe que morava numa gruta. ele era bonito, porque era cheio de vida. era uma vez esse príncipe.

          ele tinha os olhos profundos e o rosto muito magro. algumas vezes ele se olhava no espelho e dizia sua cara hoje não está legal, você está feio, você parece um monstro. noutras vezes, ele se olhava no espelho e dizia que olhar incrível que você tem, menino. cara, como eu gosto de você. como seu cabelo está bonito hoje. e seus olhos, como se parecem com os olhos de sua mãe. às vezes você se parece com um hermafrodita. não o hermafrodita dos barrocos, delicado, bonitinho, adolescente. o hermafrodita adulto, com olhos sofridos e boca sensual.

          era uma vez esse príncipe.

          e ele morava numa gruta. e ele se aconchegava dentro da gruta, para dormir, quando findava o dia. e ele demorava um pouco pra dormir, porque gostava de pensar sobre o dia acabado. ele gostava de pensar.

          era uma vez esse príncipe, que gostava de pensar...

 

Leia os capítulo 249, 250, 251, 252, 253 e 254.

 

Alma desdobrada, cap. 239, 240, 241, 242, 243, 244, 245 e 246.

Alma desdobrada, capítulos 239, 240, 241, 242, 243, 244, 245 e 246.

 

239.

          nunca mais direi, de mim, sou homossexual; ou bissexual; ou voyeur; ou onanista; ou fetichista.

          sou o que sou: sexuado. e faço uso do sexo para dar e receber prazer.

          quem classifica pessoas por preferências sexuais está apenas dividindo para enfraquecer e governar; ou para se enfraquecer e se deixar governar.

 

240.

          figuinho, com todo o encanto misterioso de seus dois olhos, está lá embaixo, perto da cascata, morrendo. aplico-lhe injeções, dou-lhe comida na boca, figuinho está morrendo.

          estou só, ando no sótão, de um lado pro outro, desolado e cheio de angústia, porque rejeitado por quem me rejeita. eu choro, desespero e grito, em prantos: meu cavalo morre lá embaixo no escuro e eu nada posso fazer.

          figuinho, você nasceu em minha casa, levantou-se com suas pernas bambas, olhou-me e cheirou-me a mão. um dia tua mãe te coiceou, só porque você veio a mim. você a olhou com seus olhinhos de quem não entende a injustiça.

          e agora, lá embaixo, junto à água fria que corre, você está morrendo, com seus grandes olhos abertos.

          tenho dores fortes nos testículos, nas costas, nas pernas, mal posso caminhar. figuinho está morrendo. gilmar diz que é preciso matá-lo, ele não vai mesmo viver, é melhor pra ele. você é capaz de cuidar disso? sim.

          sinto que figuinho morre em meu lugar.

 

241.

          minhas mãos estão se enrugando. a meio caminho da velhice. não mais o que fui; ainda não o que virei a ser, se vier a ser. fala-se do passado, não do futuro.

          minhas mãos caminham em direção ao que não posso assegurar.

 

Atualizado em ( 26 - 10 - 2015 19:13 )

Leia os capítulos 242, 243, 244, 245 e 246.

 

Alma desdobrada, cap. 232, 233, 234, 235, 236, 237 e 238.

Alma desdobrada, capítulos 232, 233, 234, 235, 236, 237 e 238.

 

232.

          mãe, uma vez que você se me negou, a quem teria eu elegido para cobrir-me do frio?, cantar-me no sem sono?, limpar-me o suor diante da injustiça?, consolar-me nas pequenas fraquezas do meu cotidiano?

          não sei! não sei!

          quando escolho no meio das gentes um adolescente a quem proteger e a me satisfazer uma distante ânsia, cujo eco não atinjo, nessa hora estarei em busca de u'a mâe? ou de um pai? ou de ser eu mãe? ou eu pai? ou tudo isto junto?

          mãe, onde no mundo se aninhou a ave daquilo que você me significa? na música? na literatura? na amizade? na minha casa? naquilo que penso ser amor? hoje, em Z...? ou em minha proposta de rejeitar-me?

          terra, terra! conjunto de sons e cheiros e cores do universo! terra, água, fogo e ar! envolvam-me, protejam-me! apertem-me e me asfixiem com a presença viva do universo! tenho frio, quero ter frio! tenho fome, não tenho pejo de ter fome! tenho sede, não me assusta a sede do mundo! mas não quero ter medo!

          tenho medo de ter medo!

          terra, água, fogo e ar! envolvam-me, deem-me essa força escondida e tão necessária: a da autossuficiência!

          quero ser um filhote de gente, de bicho, de coisa, qualquer filhote que, já parido, disponha de agilidade para evitar predadores e suficiência para cuidar-se em sobreviver. quero-me filho sem mãe.

          quero-me filho sem mãe!

          nessa minha nova parição, com tantas parteiras ao meu redor, pai, mãe, angela, neuza, V..., W..., X..., Y..., Z..., leonardo e bruno, estas presenças que invoco, tão cheias de ausência...

          quero-me filho sem mãe, com gestação tamanha e suficiente a um monstro de mil pernas.

          quarenta anos, dos quais não me lembro de vinte!, quero-me filho sem mãe!

          quarenta anos e um novo parto. eu, zeus e hefaistos e atena, os três ao mesmo tempo.

           eu, zeus, de terrível dor de cabeça, pressentindo dentro de mim uma nova e ameaçadora presença,

          eu, hefaistos, munido do machado da determinação de não ter medo e de ir até o fim desta partenogênese,  

          eu, atena, saindo de minhas entranhas inteiro e armado para a guerra da vida e para as tentativas sedutoras das artes.

          eu-pai-parteiro-filho.

          eu, jorge, jorge teles. filho sem mãe.

          pra não correr novo risco de rejeição, serei eu o meu filho bem amado, como era atena para zeus.

          só não farei voto de castidade. eu me quero todo e inteiro. não tive medo de minha dor, como ártemis teve medo da dor de sua mãe.

          mãe, não ligue pra essas coisas que falo de rejeição. o problema não é seu. o problema é meu.

          o problema é sempre meu.

 

Leia os capítulos 233, 234, 235, 236, 237 e 238.

 

Alma desdobrada, cap. 227, 228, 229, 230 e 231.

Alma desdobrada, capítulos 227, 228, 229, 230 e 231.

 

227.

incesto

 

menino, seja agora meu filho,

que eu quero ser seu pai.

ou seja então meu pai

que me faço teu filho...

 

não tenha vergonha de tua fraqueza!

estou aqui, agora, ao teu lado.

pra te alimentar,

fazer cafuné nos teus cabelos.

colocar baixinho a voz de bob dylan,

a chorar nosso mundo insano e cruel,

e te cobrir depois, só depois,

que você adormecer.

 

então, serei um pacotinho de filho

a procurar abrigo na gruta do teu abraço

e também um pedaço de pai

a vestir tuas pernas com as minhas.

e, na intenção feiticeira de te dar forças,

segurarei tua mão e mexerei em teus dedos

com cócegas lentas

e doces unhadas,

fingindo estar brincando com você.

mas o que vou querer mesmo

é acordar o teu desejo.

então, você se mexerá um pouco,

e agora,

nem pai nem filho,

nem eu nem você,

somos nós,

unhas e dentes e o tamanho descomunal

da aflição

que só termina com o orgasmo incontido.

 

e, se depois de outros sonos,

seja eu o inseguro e medroso e fraco,

serei então o filho

a procurar o ninho do teu abraço;

sem vergonha nenhuma.

você será meu pai

até a hora imprecisa em que desaparecem

pai e filho.

 

haverá um momento, quem sabe?,

em que não mais trocaremos de papel.

pai e filho, eu;

você, pai e filho.

tentando, nós dois, resolver carências

por tudo o que nos foi negado.

com nossos beijos,

com nossos gozos,

nossos olhares de sono

e nosso adormecer sem culpa.

 

Leia os capítulos 228, 229, 230 e 231.

 

Alma desdobrada, cap. 221, 222, 223, 224, 225 e 226.

Alma desdobrada, capítulos 221, 222, 223, 224, 225 e 226.

 

221.

          o que pensamos sobre as pessoas vale mais do que aquilo que são as pessoas?

          quando pensamos, construímos um perfil com o que sentimos? ou com aquilo de que necessitamos?

          seria assim como pintar, de cada um, o retrato que queremos ter do outro?

          B..., você foi a primeira mulher de minha vida. e como isto me diz pouco!

          nunca te achei uma pessoa interessante. e, o mais importante, é que nunca acreditei em você. não cruel, mas honesto. tão só honesto.

          sempre te senti uma fêmea insegura em busca da inexperiência de minhas carnes.

          tenho cartas escritas a você que não são de todo loucas porque eis que eu escrevia a alguém que sonhava amar. não era você. você era a intermediária de meu desejo. que, afinal, se fazia por si só.

          fica de tudo a lembrança boa de alguém que num determinado momento me deu alguma segurança.

          sinto que te devorei para crescer. não tenho vergonha nem culpa, porque também sinto que fui devorado.

 

222.

          minhas bolas de fogo, bolas de energia, formigamento no plexo solar, orgasmo cósmico, que sei eu?, continuaram e continuam toda a vida. sempre é uma vibração que começa em todas as extremidades do meu corpo, vai se encaminhando para o plexo solar e aí se aloja, crescendo de uma maneira descomunal.

          eu as tenho quando algo forte me invade. uma grande emoção, uma grande tensão. sempre saio delas bem e aliviado.

          antigamente eu as tinha após ou durante um filme comovente. após um diálogo com V.... raramente com música, mas acontecia.

          depois, silenciaram e estive longo tempo esvaziado delas. no auge de minha crise por Y..., veio-me a bola de fogo enquanto chorava e ouvia o liebestod de wagner. senti, logo a seguir, que minha gastrite ou úlcera, se fechava em segundos, fazendo-se em meu estômago uma deliciosa sensação de neutralidade saudável.

          tive no último ano uma série dessas bolas de energia. numa noite, brincando com o ritmo de minha respiração, descobri uma maneira de induzi-las. não quis repetir, de medo, e por pensar melhor em deixá-las à sua consequente naturalidade.

          certa noite, gravando uma fita em que eu monologava sobre minha própria dor, resolvi provocá-la, para ouvir depois, no gravador. o resultado me surpreendeu: era o som de um orgasmo a um, um grande gozo, respirar que se acelera, gemidos que se levantam e murmúrios difusos que expressavam uma grande felicidade. a seguir, nessa mesma fita, numa dos momentos de mais agradável bem estar de minha vida, narrei meio que improvisando, meio que organizando, minha história do duende, cuja inspiração me tinha vindo durante minha primeira sessão de acupuntura.

 

Atualizado em ( 30 - 09 - 2015 10:21 )

Leia os capítulos 223, 224, 225 e 226.

 
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