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Este saite está em constante construção; contém: Projeto Gil Vicente, 44 peças, com resumos, comentários e canções que fiz para as peças (Português, Esperanto); Dante Alighieri - Vita Nova, canções que fiz para os 31 poemas do livro Vita Nova (italiano); Traduções e Adaptações (inclui O Corvo, de Poe), Conta outra Vó (histórias infantis, Português, Esperanto); Peças para fantoches; Trilogia Cética; Canções Infantis Brasileiras em Esperanto. A Espécie Humana (romance), O Dia sem Nome (romance), Apolo e Jacinto (romance). A intenção é alimentá-lo semanalmente./ Ĉi paĝo konstante ricevas ion; Ĝis nun: Projekto Gil Vicente (Portugale, Esperante) kun resumoj, komentarioj kaj kanzonoj, kiujn mi verkis por la teatraĵoj; Dante Alighieri, Vita Nova, kanzonoj por la 31 poemoj de la libro Vita Nova (itale); Tradukaĵoj kaj adaptaĵoj (Portugale); Teatraĵoj por pupteatro (Portugale); Rakontu alian anjo (infanaj rakontoj, Portugale/Esperanto); Skeptika Trilogio (Portugale/Esperanto); Brazilaj Infanaj Kanzonoj. La Homa Specio (romano, Portugale, Esperante), La Tago sen Nomo (romano, Portugale, Esperante), Apolono kaj Hiakinto (romano, Portugale, Esperante) Mi intencas aldoni ion ĉiusemajne.

Rubaiat, de Omar Khayamm, 31 a 45

Rubaiat, de Omar Khayamm, 31 a 45

traduzido por Matos Pereira. Editora Jangada, Rio de Janeiro, 1944. 

 

XXXI

Nada mais é que a tenda onde repousa

um rei que vai cumprir o árduo destino.

Ergue-se o Rei, abate-o a negra Morte

e limpa a tenda à espera do inquilino.

 

XXXII

Um falso instante - e então, no palco humano,

se desenrola o dramalhão da fraude

que, para diversão da eternidade,

o próprio Allah engendra, encena e aplaude.

 

XXXIII

Que importa a mim, o que perdido eu tenha

por ter seguido a trilha que escolhi?

Dizem que Allah me perdoará – recuso

este perdão que nunca lhe pedi.

 

XXXIV

Rápidos como o vento no deserto,

velozes como as águas da corrente

os dias passam, mas ao Amanhã

e ao Ontem me conservo indiferente.

 

XXXV

Pergunta o povo se eu reduzir pude

o Ano à expressão mais simples – não. Porém,

já consegui riscar do calendário

o Ontem que foi e o Amanhã que vem.

 

XXXVI

Vais tu passar o resto da existência

buscando a chave do segredo – oh, lida!

Um fio só divide o bom do falso.

Não é de um fio que dependa a vida?

 

XXXVII

Talvez as gotas que nós derramamos

Beba-as a terra, e pelos seus arcanos

vão extinguir a dor nuns olhos tristes

que lá se escondem, Deus, há tantos anos!

 

XXXVIII

Céu é a visão das ânsias realizadas.

Inferno é a sombra da alma em dor premente,

atiradas às trevas – de onde nós,

mal saímos – voltamos novamente.

 

XXXIX

Quando eu morrer, não haverá mais rosas,

crepúsculos e sóis, orvalho e vento;

o mundo, então, se acabará também

pois sua vida é o nosso pensamento.

 

XL

Pois se a alma pode, despojando a argila,

erguer-se nua e livre pelos ares,

seria um crime, tê-la presa ao barro

que a aperta e expõe a todos os azares.

 

XLI

O que disseram santos e letrados

queimados na fogueira pelo povo,

nada mais são que histórias inventadas,

entre o acordar e o adormecer de novo.

 

XLII

Não temas que, encerrada a nossa conta,

não mais se veja aqui outras iguais.

Deus vem lançando pela Eternidade,

milhões de bolhas como nós, ou mais.

 

XLIII

É um jogo de xadrez – há noite e há dia –

onde nós sendo as peças, temos baixas.

O Destino nos move, humilha e mata,

e depois, um por um, devolve à Caixa.

 

XLIV

Senhor, tu que do pó tiraste o homem

e o Édem, com a serpente, entretiveste,

perdoa-nos o mal que nós fazemos

como perdoamos o que nos fizeste.

 

XLV

Como? Exigir que o mísero te entregue

ouro de lei, quando emprestaste escória.

Querer que ele te pague o que não deve

nem podia dever – como é essa história?

Atualizado em ( 30 - 11 - 2016 10:44 )

 

Desistória - capítulo 7.

Desistória - capítulo 7.

 

 

            Eis que estou à porta do teu coração e bato. Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei nele, e cearei com ele e ele comigo.

 

            7. eclipse.

 

            meu universo se apagou no dia em que te vi.

            como explicar aqueles dias anteriores? que minha memória força por enevoar! eram dias mortos, em que eu flutuava dentro de uma água de vida tão densa, morna, opaca. eram de um respirar não percebido; de um palpitar de coração com compassar monótono automático, num ritmo que se repetiria até o último alento; de um olhar em torno que não permitia distinguir essências de coisas, espíritos de objetos, faíscas de gestos, estampidos luminosos de sorrisos. eram dias de morte; como se eu não existira até então, apenas desenrolasse a parcela de minha existência. cabisbaixo e feliz por cumprir o destino, imaginando, tendo aprendido, que aquilo que eu vivia não vivendo, fosse de fato um destino. o que é que torna legítimo um destino humano? que tremor de olhar? que descompassada aceleração de coração assustado? e que nome tem o destino sem o tremor, sem o susto, sem as fagulhas? que nome aplicar à vida que não é vida? como separar a vida viva da vida de espelho? falsa imagem de uma realidade que não atingimos em cheio, apenas sabemos refletida num espaço que, com toda a certeza, não existe. que podia eu fazer com todo aquele vazio? não se tapa buracos com mãos cheias de nada!

            aquele destino não me destinado, aquela vida não me soprada, eram o meu destino e a minha vida antes de você. uma criatura eu, à espera de mim mesmo; de um abrir os olhos, de um acordar, de um sopro de um novo deus de carne e osso, a insuflar nos meus pulmões, a luz do significado; talvez ainda obscuro, mas, pelo menos, presente!

            que sabia eu antes de você? que verdades tinha estudado? e que mentiras tinha aprendido, dentro das verdades estudadas?

            que o mundo era bom, que o homem devia ser bom! que existia o mal e o bem e que o homem nasceu para ser tentado. que o bem se esconde atrás do sofrimento. que o homem já nasce culpado. estas eram as mentiras que se escondiam atrás das verdades estudadas.

            que houve um deus que criou o mundo e o céu e o inferno. e criou o homem à sua imagem. e é um deus triplo, o mistério de três pessoas numa só pessoa; o pai, a mãe e o filho. cada qual com sua função: um pai ardente de ação, uma mãe prenhe de amor, um filho carente de justiça. e esse deus habitou a terra para dar-se a conhecer aos mortais, ensinando-se a todos nós, na pessoa de seu filho que, não compreendido e injustiçado por todos, estivera toda a sua curta vida amarrado com tiras de couro numa cama de madeira, em forma de cruz, tratado como louco. mas seu olhar de força e mistério ensinou a um dos auxiliares que dele cuidavam e este saiu depois de sua triste morte, a espalhar a nova de sua celestial mensagem. e todos compreenderam e ensinaram por sua vez quem era o deus verdadeiro, de que era feito, que dores sofrera, que verdades trouxera, que deveres impunha.

            e os homens acabaram por adulterar a noção do divino. cada terra, conforme suas lendas anteriores, seus costumes, suas fantasias, cada cidade, cada região, transmutou a divindade em centenas de divindades menores e mais fracas. só o deus verdadeiro conseguiria unir o homem. não aquelas tantas divindades estranhas e pessoais. aqui, o filho se transformava no deus da guerra, ali, a mãe era já uma deusa de sedução, além, o pai virava um deus de chuvas e trovões e depois o filho era o deus do sol e a mãe a terra com suas searas maduras e o pai um gigante divino que bebia sangue humano...

            e aprendi mentiras de verdades, que diziam como a igreja universal invadiu cidades e degolou reis, para que o deus verdadeiro fosse cultuado. e de como os homens amarelos lutaram com os negros, por seus deuses. e de como os homens negros sacrificaram mil crianças brancas, por seus deuses. e de como os homens brancos invadiram terras e violaram mulheres amarelas, por seus deuses. e de como brancos lutaram com brancos e negros com negros e amarelos com amarelos, destruindo-se pelo que chamavam o deus verdadeiro.

Atualizado em ( 23 - 08 - 2016 01:25 )

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Malhistorio - ĉapitro 6.

Malhistorio - ĉapitro 6.

  

 

          Kaj vi ne scias, ke vi estas la mizera kaj kompatinda kaj malriĉa kaj blinda kaj nuda.

 

 

          6. la tagiĝo de la frenezo.

 

 

          mia vivo enhavas du historiojn: antaŭ kaj post mi.

          vivo antaŭ mi estas tiu malĝojega periodo de mia infaneco kaj adolesko, kiam ĉio de mi vivata ŝajnis ne esti vivata. la patro, la patrino kaj la ĝibulo neniam kredis pri tio rakontata de mi. fojfoje mi rimarkis ke ili inter si rigardis per malica kompliceco, kaj mi falis en konfuzan kaj perturbitan situacion. ĉu mi vivas aŭ ne? ĉu mi mortas aŭ ne? sed la leteroj de mia patrino, eltrovitaj tuj post ŝia morto, certigis min ke ili min konsideris kiel frenezulon.

          vivo post mi, estas la ceteraj el miaj tagoj, sekve al la nokto de la granda revelacio, kiam mi perceptis ke estas ili la frenezuloj. kaj mi, kiel la nura vivaĵo kiu ekzakte komprenas la faktojn, mi devas akcepti tiun grandiozan mision, nome elteni por la homoj ilian neelteneblan ŝarĝon; tiel peza kaj nedezirata estas la ŝargo, ke mi, iom post iom, sufero post sufero, bezonis transformi min en la dion, kiu nun mi estas. kaj mi diras ke, nur pere de tiu metamorfozo, sublima, pasi- kaj ĉagrenplena, mia koro sukcesas elteni la doloron pro la grandampleksa peko pri ekzistado. kaj ankaŭ scii ke mi pagis parton el miaj kulpoj kiam mi montras al la homoj vojon plenan je lumaĵoj kaj eternaj veroj. tiele mi prezentas al ili ian signifon al ilia vivo de forpelitaj el la tri paradizoj.

          mi komencos de antaŭ la komenco. mia patro estis mastro de vasta regiono. kun la filino, li loĝis en granda palaco, plena je servistaro kaj parencaro. la vivo en la palaco, ho!, neniam finiĝanta festo estis la vivo en la palaco. muzikistoj kaj dancistoj kaj artistoj vivigis la bankedojn, kaj abunde sinsekvadis la frandaĵoj. tiam mi ankoraŭ ne ekzistis. la ĝibulo rakontadis al mi pri tio. kaj rakontadis ke, finita la bankedo, ĉiuj aŭskultadis la vojaĝantajn pilgrimojn kun iliaj fantastaj kaj nekredeblaj travivaĵoj. mia patro estis konsiderata kiel bonega gastiganto, el ĉiuj lokoj alvenis homoj por lin viziti. tiel malproksimaj estis kelkaj lokoj, rakontadis la ĝibulo, ke kelkaj homoj diris ke ili bezonis devanci pli ol sep maroj, pro la malproksimeco; tiel kaj tiel malproksime ke oni ne facile kredis esti eble ke iu povus loĝi tie. kaj tiuj fremdlandanoj dormadis kaj manĝadis en la patra palaco kaj post la bankedo rakontadis pri siaj strangaj kaj eksterordinaraj moroj. mia patro adiaŭis ilin per delikataj donacoj kaj deziris bonan vojaĝon.

          en tiuj tempoj la terposedantoj havis reĝan povon. kiel heredaĵo ili ricevis palacojn kaj bienojn kaj regis sur la regionoj severe kaj violente. ili estis la mastroj de justico. malriĉegaj kamparanoj loĝadis en la ĉirkaŭaĵoj kaj nenion ili rajtis se ne planti kaj paŝti brutaron. ĉar la tero ne apartenis al ili, ili devis pagi al la mastro la luadon pri la grundo. la pago estis je varoj kaj mastraj impostistoj kruele kontrolis tiun pagon. la vivo de la kamparanoj nenion valoris kaj iu ajn delikto estis punata per la maksimuma puno: la morto, plenumata en speciala loko, preskaŭ ĉiam ene de la palacaj muregoj: unue oni kastris la kulpulojn; de la virinoj ili trapikis la mamojn per stileto; poste estis fortranĉitaj el ĉiuj, la piedoj, la manoj kaj fine la kapoj. kiam la viktimoj svenis, post fortranĉo de la membroj, la ekzekutistoj atendis ĝis ilia konscienco revenis. kaj ĉirkaŭe promedadis la popolamaso, konversaciante kaj manĝante siajn kolbasojn, atendante la daŭrigon de la torturado.

          tiam ne ekzistis skribita leĝaro, escepte de speco de konstitucio ricevita de la gepatroj, kie oni listigis la mastrajn rajtojn. ĉiun kvinan jaron la plej maljunaj familianoj rajtis ŝanĝi tiun rajtliston kaj tion oni ĝenerale faris por vastigi la rajtojn. tiel la mastroj ĉiam iĝadis ankoraŭ pli fortaj. kelkfoje najbaraj konstitucioj interkonfliktiĝis pri landlimoj kaj okazis malgrandaj militoj: oni armigis la kamparanojn kaj tuj novaj landlimoj estis fiksataj. tre malofte iu regiono estis dividita inter la heredantoj. preskaŭ ĉiam unu el ili finis por sole regi, detruis la konkeritajn palacojn aŭ translokiĝis al ili, se tio estis konsiderata kiel pli konvena. nun ili organizis novan censon por nombri la novajn loĝantojn kaj kreis sian novan rajtokodon.

          kaj tiele pasis la jaroj. mia patro kaj lia filino maljuniĝis kaj al ĉiu svatiĝanto pri la junulino mia patro, rakontis la ĝibulo, prezentis serion da neeblaj postuloj kaj ankaŭ parolis pri la malvirtoj de la pretendanto. tago post tago malmultiĝis la svatantoj, unue pro la postuloj, poste pro la kreskanta aĝo de la virgulino. tago venis kiam oni ne plu pripensis pri edziĝo. mia patro estis nun sepdek-jaraĝa kaj la filino kvindek kvin. la palaca vivo ne perdis sian viglecon, sed la ritmo ne estis tiel energia.

          kaj iutage aperis stranga vojaĝanto. la ĝibulo vidis lin kaj rakontis: alta kaj magra, kadavra mieno, rigardo de misteraj arbaroj kaj montaroj kaŝitaj de nebuloj. li vestis nigran mantelon kaj ĉiuj surpriziĝis pro tio, ke la mantelaj randaĵoj ne estis polvokovritaj kiel tiuj de la ordinaraj vojaĝantoj. li nenion manĝis krom peco da pano kaj nenion trinkis krom kaliko da vino. kaj pridemandata pri siaj vojaĝoj kaj sia lando, li diris ke li venis nur por averto: ke la pesto rondiradas sur la suda regno kaj la norda kaj la orienta kaj la okcidenta. kaj ke la morto ĉie sterniĝadas, buĉante per la sama indiferenta malkompato kaj maljunulojn kaj junulojn kaj bonulojn kaj maliculojn. kaj li prenis pokalon, plenigis ĝin per akvo, riverencis mian patron, riverencis la filinon de mia patro kaj silente foriris, kun la pokalo. neniu plu revidis lin. kompreneble ne ĝuste tion rakontis la ĝibulo; kiam mi rimarkis pecon el vero kaŝitan malantaŭ liaj mensogaĵoj kaj alian pecon el vero kaŝitan malantaŭ liaj silentoj, mi kondukis la rakonton laŭ mia vero, kiu estas la nura veraĵo.

          mia patro anoncis ke en la sekvonta mateno li fermos la muregojn kiuj ĉirkaŭas la palacon; ke en la grenejoj estas tritiko kaj maizo kaj aveno por multaj jaroj; ke tiu kiu volas ĉi tie resti, faru ĝin laŭvole; kaj foriru tiu, kiu tion intencas.

          kaj en la sekvanta mateno la palaco estis tute malplena. nur li, lia filino kaj la ĝibulo restis. tion rakontis la ĝibulo kaj tiele mi decidis ke okazis.

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Rubaiatt, de Omar Khayyam, 16 a 30

RUBAIAT, DE OMAR KHAYYAM, 16 a 30

 traduzido por Matos Pereira. Editora Jangada, Rio de Janeiro, 1944. 

 

XVI

Na primeira manhã do Paraíso

o Homem não sente mágico transporte.

Adão já era um ser desiludido

que chorara, de noite, pela morte.

 

XVII

Tira a papoula a cor do próprio sangue

que das veias jorrou de um ser qualquer.

E os lírios da Madona germinaram

das lágrimas de uns olhos - de mulher!

 

XVIII

Debruça-te de leve sobre a relva

na margem deste rio. Ela é rebento

dos lábios que com beijos nós selamos

e que a Morte selou no esquecimento.

 

XIX

Vede, dentre as que amamos, as mais lindas

a quem os fados bons favoreceram,

seus momentos tiveram de delírio

e, uma por uma, desapareceram.

 

XX

E nós, folgando neste espaço em que eles

vagaram - e cantando no verão,

sob um leito de terra nós iremos

fazer um leito - para quem?, irmão.

 

XXI

Ah!, gozemos o tempo que nos resta

antes que ao pó volvamos, antes, sim.

Pó para o pó, e sob o pó jazemos,

sem fé, sem vinho, sem amor, sem fim.

 

XXII

Tanto aqueles que vivem para hoje,

quanto os que no amanhã têm o olhar fito,

o Muezzin, da sombria torre, exclama:

Loucos! A vossa recompensa é um mito.

 

XXIII

Dos sábios e dos santos que se arguiram

sobre o Ser e o Não Ser, com vozes roucas,

já foram as palavras esquecidas

e eles ao pó, que lhes tapou as bocas.

 

XXIV

Vem com Khayyam e deixa o egrégio sábio

falar; verdade é só que a vida corre...

Isto é verdade. E tudo o mais, mentira.

Desabrochada, a rosa murcha e morre.

 

XXV

Eu, quando jovem, procurei ouvir

argumentos de santo e de letrado

sobre isto e aquilo, mas ao fim,

sempre saí tal como havia entrado.

 

XXVI

Planto a semente do saber com eles

mas foi a minha mão que a cultivou.

E isto foi tudo que colher eu pude:

- Como a água eu vim e como o vento vou.

 

XXVII

E, sem saber porque a este mundo vim

- Folha a boiar, das águas à mercê,

sem mesmo saber de onde nem pra onde,

eu vou saindo, sem saber: Por quê?

 

XXVIII

Pela sétima porta me elevei

ao trono de Saturno soberano;

mil problemas solvi pelos caminhos.

Mas não da Morte nem do Fado Humano.

 

XXIX

Houve uma porta que eu abrir não pude.

Houve um véu através do qual não vi.

Foi breve o instante em que nos falamos.

Depois, silêncio sobre mim e ti.

 

XXX

Eu pergunto a mim mesmo o que é que eu tenho

e após a morte do que será do "Eu".

A vida é breve, é chama, é cinza, e o vento

ao dispersá-la diz: Alguém viveu.

Atualizado em ( 30 - 11 - 2016 10:44 )

 

Desistória - capítulo 6.

Desistória - capítulo 6.

 

 

 

            E não sabes que és um miserável e infeliz e pobre e cego e nu.

 

 

            6. o alvorecer da loucura.

 

 

            minha vida se compõe de duas histórias: antes de mim e depois de mim.

            antes de mim é aquele trágico período de minha infância e adolescência, quando as coisas que eu vivia eram tidas por não vividas. o pai e a mãe e o corcunda não acreditavam em nada do que eu contava. uma ou outra vez eu notei que eles se entreolhavam com maliciosa cumplicidade, deixando-me num confuso estado de perturbação: eu vivia ou não? estava morto ou não? as cartas de minha mãe, todavia, descobertas após sua morte, me deram a certeza de que eles me tomavam por louco.

            depois de mim é o resto de meus dias, após a noite da grande revelação, quando descobri que eles é que estão loucos. e que eu, como único ser vivo a ter exata noção dos fatos, tenho que me resignar com esta grandiosa missão de suportar pelos homens o seu insustentável fardo; tão pesado e indesejado, que, aos poucos, após provação e provação, tive que me transformar no deus que tenho sido. e digo que só esta metamorfose sublime, apaixonada e dramática, foi que tornou suportável ao meu coração a dor causada pelo magno pecado de existir. e também sentir que paguei parte de minhas culpas acendendo aos homens um caminho de luzes e verdades eternas, dando-lhes um sentido para a vida vã de banidos dos três paraísos.

            começo de um pouco antes do começo. meu pai era senhor de uma vasta região. morava com sua filha num enorme palácio, cheio de criados e parentes. a vida no palácio, era uma festa inacabável, a vida no palácio. músicos e dançarinos e artistas animavam os banquetes e os pratos se sucediam com fartura. eu não existia então. o corcunda me contava estas histórias. e contava que, terminado o banquete, todos se punham a ouvir os peregrinos viageiros com suas fantásticas narrativas inacreditáveis. meu pai passava por excelente anfitrião, vinha gente de todos os lugares visitar suas terras. de tão longe vinha gente, contava o corcunda, que algumas pessoas diziam ter atravessado mais de sete mares, de tão longe vinham; tão longe e tão longe que não se podia acreditar que vivesse gente àquela distância de nossas terras. e todos aqueles estrangeiros dormiam e comiam no palácio de meu pai e depois do banquete falavam de seus estranhos e inusitados costumes. meu pai os despedia com presentes graciosos e lhes desejava tranqüila viagem.

            naqueles tempos os donos das terras tinham um poder de reis. recebiam palácios e fazendas como herança e dominavam suas regiões com severidade e violência. eram os senhores da justiça. suas terras eram habitadas por camponeses muito pobres que não tinham outro serviço se não cultivar os campos e pastorear. como as terras não lhes pertencessem, eram obrigados a pagar aos senhores o aluguel do chão. os pagamentos eram feitos em mercadorias e controladores senhoriais fiscalizavam cruelmente as entregas dos impostos. as vidas dos camponeses não tinham valor algum, qualquer pequeno delito era punido com a máxima pena: a morte, executada num local especial, geralmente dentro dos muros dos palácios: primeiro, castrava-se os culpados; as mulheres tinham os seios perfurados com estiletes; depois eram decepados os pés, as mãos e finalmente a cabeça. quando as vítimas perdiam os sentidos, após a decepamento de seus membros, os carrascos esperavam que tornassem à consciência. e as pessoas passeavam em torno, admirando a construção portentosa do palácio, conversando e comendo suas salsichas e seus chouriços, aguardando a continuidade das torturas.

            não havia lei escrita naquele tempo, a não ser um tipo de constituição que o senhor recebia dos pais, onde vinham relacionados os seus direitos. de cinco a cinco anos, membros mais velhos da família reunida podiam alterar a lista de direitos, ampliando assim o alcance da arbitrariedade dos senhores. vez por outra, constituições vizinhas entravam em conflito sobre fronteiras e os senhores faziam pequenas guerras entre si: os camponeses eram armados e estabeleciam-se novas demarcações. algumas raras vezes uma região era dividida entre herdeiros. no geral, um senhor acabava por dominar o vizinho, destruía-lhe o palácio ou mudava-se para ele, se assim fosse mais conveniente. fazia um recenseamento de todos os habitantes subjugados e criava o seu novo código de direitos.

            e foi assim que se passaram anos e anos. meu pai e sua filha envelheciam e para todos os pretendentes que apareciam para se casar com a jovem, o meu pai, contava o corcunda, meu pai apresentava uma série de exigências impossíveis de cumprir, enumerando a seguir os defeitos que via no pretendente. estes rareavam dia a dia, primeiro por saber das dificuldades que encontrariam, depois porque a virgem avançava em idade. a partir de um certo tempo, não mais se cogitou, então, de casamento. ambos estavam velhos, meu pai com setenta anos e sua filha com cinqüenta e cinco anos. a vida no palácio não perdera a vitalidade, mas tivera diminuído bastante o seu ritmo.

então, chegou um dia um estranho viajante. e o corcunda contou que o vira; ele era alto e magro, de rosto cadavérico, branco, olhar de florestas misteriosas e montanhas escondidas por neblinas. vestia um manto preto e era de se estranhar que suas barras não estivessem empoeiradas como as barras dos mantos dos comuns dos viajantes. ele nada comeu, além de um pedaço de pão e nada bebeu se não uma taça de vinho. e instado a falar de viagens e de sua terra, ele disse que apenas queria dar uma notícia: a de que a peste rondava o reino do meridião e o do setentrião e o do nascente e o do poente. e que a morte se espalhara por todo o mundo, sangrando com a mesma impiedade indiferente os velhos e os novos e os bons e os maus. então ele tomou uma taça, encheu-a de água, fez uma reverência à filha de meu pai, depois a meu pai mesmo, e saiu silencioso, levando a taça. ninguém o viu mais. é claro que não foi bem assim que contou o corcunda; quando eu percebi um pedaço de verdade escondido atrás de suas mentiras e outro pedaço de verdade guardado atrás de seus silêncios, conduzi a história de acordo com a minha verdade, que é a única verdadeira.

            meu pai anunciou que na manhã seguinte fecharia as muralhas que envolviam o palácio; que nos celeiros havia trigo e milho e aveia para muitos anos; que aquele que desejasse permanecer ali poderia fazê-lo; e que se fosse quem assim o entendesse.

            e na manhã seguinte o palácio amanheceu vazio. tinham ficado apenas ele, sua filha e o corcunda. assim contou o corcunda e assim decidi que fora.

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