Vizitantoj
Trafoj por rigardoj de enhavo : 670202
Retumante
Nun estas 7 vizitantoj retumante
Descrição

Este saite está em constante construção; contém: Projeto Gil Vicente, 44 peças, com resumos, comentários e canções que fiz para as peças (Português, Esperanto); Dante Alighieri - Vita Nova, canções que fiz para os 31 poemas do livro Vita Nova (italiano); Traduções e Adaptações (inclui O Corvo, de Poe), Conta outra Vó (histórias infantis, Português, Esperanto); Peças para fantoches; Trilogia Cética; Canções Infantis Brasileiras em Esperanto. A Espécie Humana (romance), O Dia sem Nome (romance), Apolo e Jacinto (romance). A intenção é alimentá-lo semanalmente./ Ĉi paĝo konstante ricevas ion; Ĝis nun: Projekto Gil Vicente (Portugale, Esperante) kun resumoj, komentarioj kaj kanzonoj, kiujn mi verkis por la teatraĵoj; Dante Alighieri, Vita Nova, kanzonoj por la 31 poemoj de la libro Vita Nova (itale); Tradukaĵoj kaj adaptaĵoj (Portugale); Teatraĵoj por pupteatro (Portugale); Rakontu alian anjo (infanaj rakontoj, Portugale/Esperanto); Skeptika Trilogio (Portugale/Esperanto); Brazilaj Infanaj Kanzonoj. La Homa Specio (romano, Portugale, Esperante), La Tago sen Nomo (romano, Portugale, Esperante), Apolono kaj Hiakinto (romano, Portugale, Esperante) Mi intencas aldoni ion ĉiusemajne.

Rubaiat, de Omar Khayyam, 1 a 15

Pequena introdução.     

 

          desde que comecei, há nove anos, a publicar meus trabalhos neste saite, pela primeira vez, passo a publicar uma obra alheia.

          tenho textos alheios, que traduzi ou musiquei, e um trabalho meu traduzido para o Esperanto, por Geraldo Mattos. todos os outros são inteiramente de minha lavra.

          quando eu tinha entre quinze e dezesseis anos, apareceu na minha casa o livro Rubayat, de Omar Khayyam. teria pertencido à Biblioteca da Escola Naval, onde trabalhavam duas de minhas irmãs? não sei. sei que fiquei tão fascinado com o livro, que o copiei inteiro. infelizmente, por conta da inexperiência e do desconhecimento sobre direitos autorais e algumas mazelas acadêmicas, não copiei a introdução, o nome da Editora, a data da edição e nem o nome do tradutor.

          com o advento da Internet, passei a procurar com frequência a exata tradução que eu tinha, já que ao longo dos anos fui conhecendo diversas, em prosa ou verso. nenhuma tinha, para mim, o que eu encontrara no meu texto copiado: o sabor das quadrinhas populares de Portugal e do Brasil, certeiras, singelas, quase descuidadas, mas que sempre passam a essência do pensamento do autor. todas as outras, ou quase, são, a meu ver, pretensiosas, cheias do que eu chamo de literaturice. o autor se aproveita de texto alheio para, na tradução, exibir um virtuosismo burro e artificial. sempre estive mais para Monteiro Lobato do que para José de Alencar. quem tem o que dizer não precisa enfeitar.

          recentemente encontrei um volume num sebo do Rio de Janeiro. a publicação é de 1944. da Editora Jangada, no Rio de Janeiro. e o tradutor, Matos Pereira.

          como meu saite não tem objetivos comerciais, vou passar a publicar as famosas quadrinhas de Khayyam.

     são 181 quadrinhas. vou mostrá-las aos poucos, de quinze em quinze. 

          e, ao final, pretendo apresentar comentários e esclarecimentos sobre o autor e sua obra, em torno do quê, existe uma quantidade enorme de fantasia e desinformação.

 

 

Rubáiat

 

Omar Khayyam

 

(Pérsia, atual Irã, 1048-1131)

 

 

I

Desperta! O dia, na noturna taça

jogou a pedra que afugenta estrelas;

e o Caçador do Oriente, em nós de luz,

prendeu as torres do sultão - sem vê-las.

 

II

E quando o galo canta, os que ante a porta

se acham, põem-se a gritar: Abre, rapaz,

tu sabes que não temos muito tempo,

e uma vez idos - nenhum volta atrás.

 

III

O ano novo traz velhos desejos

e leva o triste à solidão da serra

onde a mão branca de Moisés se estende

e suspira Jesus, dentro da terra.

 

IV

Nesta estação de flores e perfumes,

cheia de amor, de paz, de canto e luz,

será o lírio a dextra de Moisés?

e será a brisa o sopro de Jesus?

 

V

Olha, mil flores despertaram hoje

e mil jazem no pó - aqui e além.

E este mês de verão que traz a rosa,

leva Jamshy e Kaikobá também.

 

De acordo com o grande poeta Ferdowsi Shahnama, Jamshy foi o quarto rei do mundo. Ele dominava sobre todos os anjos e os demônios e o mundo; foi também soberano e sacerdote supremo da Hormozd. Possuiria uma taça prognosticadora, cujos sete círculos simbolizavam os sete planetas e os sete mares. Nela se continha o elixir da vida.

Kaikobá, rei guerreiro da Pérsia, semi-histórico.

 

VI

Mas vem com o velho Omar, e deixa a sorte

de Kaikobá e Kaikhosru, no olvido.

que se zangue Ruystum e que Hatin Tai

grite pelo jantar, não dê ouvido...

 

Kaikhosru, rei lendário pérsico.

 Ruystum, guerreiro lendário, conhecido poor suas grandes façanhas.

 Hatin Tai, poeta maometano, bastante conhecido por sua franca generosidade.

 

VII

Vamos pelo gramado que separa

a "Terra de Ninguém" da que tem dono:

onde cada um é livre, onde a ave canta,

e choremos Mahmude no seu trono.

 

VIII

Aqui, com alvo pão, sob esta fronde,

com vinho e versos - e contigo, amor,

ao mesmo lado, cantando no deserto,

mesmo o deserto é um paraíso em flor.

 

IX

Com água e pão, sob esta verde fronde,

e vendo o amor que em teu olhar existe,

nenhum sultão é mais feliz do que eu.

Mendigo algum, também, não é mais triste.

 

X

"Doce é o poder mortal" - pensam alguns,

outros: "o Paraíso é fascinante."

Agarra-te ao que tens, e deixa o resto.

Que vale o toque de um tambor distante?

 

XI

Olha a rosa que em torno a nós viceja.

"Rindo", ela diz, "para este mundo eu vim.

Mas quebrem-me o cordão da minha bolsa

e o meu tesouro fica no jardim."

 

XII

A esperança em que tanto confiamos

vira cinza ou prospera; porém, ai!

como a neve no tórrido deserto,

explende uma hora, duas... e se esvai.

 

XIII

Aqueles que o grão de ouro cultivaram

e os que o lançaram, sem pensar, aos ventos,

jamais se tornarão em áurea poeira

pois o sepulcro é surdo aos seus lamentos.

 

XIV

Pensa: nesta estalagem toda em ruínas,

cujos portais são o poente e a aurora.

sultão após sultão, com tanta pompa,

se hospedou um momento, e foi-se embora.

 

XV

Ouvi dizer que o leão e a lagartixa

moram nos paços do sultão vencido.

E o asno selvagem escava onde ele jaz.

E ele - profundamente adormecido.

Atualizado em ( 22 - 01 - 2019 14:37 )

 

Desistória - capítulo 5.

Desistória - capítulo 5.

 

  

            E enquanto aqueles animais davam glória e honra e ação de graças ao que estava sentado sobre o trono...

 

 

            5. entardecendo.

 

 

            tantas e tais histórias e crônicas e contos e relatos e narrativas que eu já tenha escrito e eis que penso agora em escrever a minha própria vida. fico me perguntando até onde posso ir, para trás, tentando descobrir antecedentes à minha pessoa. sei que poderia consultar os documentos de meus pais e meus avós e meus bisavós. caminharia assim às avessas, até esbarrar nos ancestrais sem registros, anônimas criaturas do antes, que existiram para seu próprio existir e que deram impulso a fagulhas de vida que se multiplicaram e se juntaram e se reuniram naquilo que sou. eles não vieram para que eu viesse. nisso não creio. como não creio também que eu tenha vindo para que, através de mim, num futuro, uma vida futura venha a me reclamar como seu intermediário de existência. cada um vem por si só. e todos por tudo. é uma interminável cadeia de relações estreitíssimas, essa da vida, mas é a única cadeia em que se possa considerar cada elo como suficiente por si mesmo, apesar e apesar das dependências de cada um com todo o resto. apenas isto separa o homem do animal. talvez seja uma questão de ponto de vista. difícil isto de ponto de vista.

            volto a minha história. não vou procurar registros em arquivos cheios de mofo e esquecimento. tentarei começar do passado que conheço, pelo que me lembro de histórias ouvidas de avós e bisavós. não é que a soma dessas histórias vá se concentrar na minha história; vai essa soma passar por mim. passar por mim. passar por mim e continuar à sua maneira.

            tomo fôlego e tento me lembrar do que sei sobre os elos que vieram antes.

            o pai do meu avô paterno foi um soldado desconhecido que, numa invasão de aldeia, violentou uma menina de treze anos, já formada. ninguém sabia o nome dele nem a sua idade e ela não chegou a perceber a cor de seu olhar. eles entraram na escola silenciosa, embriagados e imundos, um bando enorme, e dividiram as presas entre si e se saciaram cantando o hino de seu país, a terra das altas montanhas. ao ritmo daquele canto selvagem, eles depositaram nos corações das menininhas o desespero do terror e nos úteros noviços as sementes de róseos e vivos bonecos de carne. as meninas foram escondidas e protegidas por mães aflitas e envergonhadas, esquecidas estas mães de que todos, jovens e velhos, tinham sofrido as mesmas humilhações; como se humilhações mascaradas se tornassem menos humilhantes. e os nove meses se passaram e num curto tempo a aldeia foi brindada com um grupo chorão de filhinhos do susto e do primeiro prazer inesperado.

            o parto de meu avô, consta que foi demorado e doído. sua mãe, ainda não com quatorze anos, lavou-o com cuidado, embrulhou-o na toalha branca recebida de uma parenta e disse que ia dormir. amanheceu pendendo na forca da praça, a mesma forca onde eram enforcados os ladrões mais perversos e os assassinos. ninguém soube como conseguira preparar a corda ou como chegara à praça, tão abatida estava. meu avô foi criado por sua avó até dois anos e depois entregue a uma instituição para órfãos. e os meninos sempre o chamavam de filho da forca. o filho da forca foi o pai do meu pai.

            o casal que foi pai e mãe de minha avó paterna, vivia numa grande cidade, num país do sul. ele, meu bisavô paterno, era um jovem rico que se dizia descendente de antigos reis. era inconstante e orgulhoso e tinha apenas quinze anos quando se casou. sua mulher tinha vinte anos a mais. ela se casara por pressão da família, de uma nobreza decadente e nenhum dinheiro. para o jovem rico, o casamento era uma forma de obter um título de família. eles tiveram apenas uma filha, que foi a mãe de meu pai. aos dezessete anos o meu bisavô tomou um pequeno barco de aventureiros e se lançou ao mundo. e minha bisavó passou o resto de seus dias numa varanda do enorme casarão, a olhar para o mar. perdido o brilho dos olhos e a cor dos lábios, ali ficou ela, deixando-se esquecida num tempo que não acabava nunca. o bisavô nunca mais voltou e nunca mais se soube dele. num crepúsculo de inverno, incendiado e louco, foram chamá-la para jantar e ela dormia. os criados não quiseram incomodá-la. só mais tarde, quando sua velha mãe a procurou para dar boa-noite, foi que descobriram que ela estava morta.

leia mais.

 

Malhistorio - ĉapitro 4.

Malhistorio - ĉapitro 4.

 

 

           Kaj en lia buŝo ne troviĝis mensogo.

 

 

          4. jaro kiu daŭris cent jarojn.

 

 

          antaŭ kvin jaroj mi naskiĝis kaj jam mi tiel lacas pro la homa kunvivado!

          povraj kaj malfeliĉaj homoj, arestitaj ene de la mizero de ili mem konstruita, al neekzistantaj fortoj ili klamas por ke tiuj fortoj senŝarĝu de sur iliaj dorsoj la fantomajn pezojn. en la komenco mi pleniĝis je kompato. sed tuj mi malkovris ke kompato ne helpas. estu mi la homa patro, la homoj neniam forlasos la kondiĉon esti homidoj. mi perceptis ke kelkfoje eĉ la esperon oni devas forpreni de ili, kontraŭe ili droniĝos en turmenta lago de revoj. ilia doloro ne instruis ilin. ili malfruiĝas en lernado, kiel ili malfruiĝas en lernado! ĉu eble ili pensas ke, antaŭ ili, ili havas la tutan eternecon? do, estas tiel malfacile eltrovi ke sufiĉas unu eraro por ke oni lernu? kion ili atendas? ke supera instanco malfermu iliajn buŝojn kaj enŝovu en ili, de ekstere internen, la veron de la vivo? kiel diri al ili ke la vero ĉiam foriras el la homo, preskaŭ neniam eniras?

          ili ĉiam pretas ne lerni, por ke ilia doloro pezu sur ili pli torture. per tiom da doloro ili volas nutri sian nesatiĝantan kulpon. ili ne perceptas ke la kulpo estas kiel buŝego de granda idolo instalita sur vulkano, la tuta suferado ne sufiĉus ĉar, sinkinta la doloro en la fundon de la vulkano, ĝi cindriĝos kaj sin transformos en nenion. kaj la homoj ne malkovris ke, por sin liberigi de la doloro, sufiĉas sin liberigi de la kulpo.

          tion mi perceptis kiam mi iĝis sesmonata. ke mia doloro estis ido de mia kulpo kaj mia kulpo estis rezulto de la etika kodo. kaj mi devus liberiĝi je tiu moralo algluita sur mian frunton ekde mia naskiĝo. kaj mi devus krei mian moralon, konsente kun la plej profundaj anheloj de ĉio apartenanta al mia esto. tio estis grava eltrovo, eble la plej grava en mia tuta vivo, ĉar ĝi malfermis la pordojn al multaj konoj kaj multaj emocioj. tiu eltrovo okazis dum neforgesebla sonĝo, en mia sesmonata datreveno. mi marŝadis sur mallarĝa kaj longa pado, mi sukcesis scii nek kien ĝi kondukis nek el kie ĝi venis. mi malfacile iradis, mia korpo lacis kaj mi ne sentis min tute libera. tiam mi konstatis ke mi estis ŝnurligita: mia kapo, mia koro, miaj kruroj, miaj renoj, miaj okuloj, mia lango... el mia tuta korpo eliradis fadenoj, kiuj sin perdis malantaŭe. mi haltis, turnis la vizaĝon kaj vidis ke la fadenoj iris ĝis granda ĉarego, preskaŭ ne videbla meze de la nebulo. mi tiradis la ĉaregon kaj ĉion sur ĝi enhavantan; certe pro tio marŝi kaj lerni iĝis tiel malfacile. kaj nun mi vidis sur la ĉarego la bildon de mia senvizaĝa patrino kaj, eĉ senvizaĝe, mi sentis ke ŝi multe timadis; mi ankaŭ vidis mian neniam viditan patron, starantan figuron, mi ne sukcesis percepti ĉu li jes aŭ ne havis kapon. kaj kial estas mi kondamnita kunporti tiujn tre afliktajn kaj pezajn fantomojn? mi klopodis por liberigi min el la ŝnuroj, ili estis forte ligitaj, estis tute neeble. mi preskaŭ malpacienciĝis sed mi jam delonge malkovris ke malpacienco tro konsumas. necesis halti kaj pensi. mi decidis reveni. ĉar, se mi revenas, la ĉarego ne revenus ĉar ĝi restus senmova. kaj mi alproksimiĝis kaj la nebulo malrapide forviŝiĝis kaj la figuroj iĝis pli kaj pli klaraj. mia patrino kun ŝia nigra vesto kaj blanka tuko kovranta ŝian tutan kapon; mia patro starante kaj tenante enmane sian fortranĉitan kapon. nenia rideto. tro senmovaj, sed vivantaj. la freneza sonĝo de la homo, kiu ne konas limon. ne havas limon, la freneza homa sonĝo. kaj mi diris:

          mi ne plu kunportos vin. se vi volas, sekvu min, se bezonate. sed mi rifuzas kunporti vin. mi ne estu kondamnita al pasinteco. mi estas libera!

Atualizado em ( 15 - 06 - 2016 21:54 )

legu pli

 

Desistória - capítulo 4.

Desistória - capítulo 4.

   

 

E não se achou mentira na sua boca.

 

 

            4. o ano dos cem anos.

 

 

            cinco anos há que nasci e já se me apresenta tão fatigante o convívio humano!

            pobres e infelizes homens, encarcerados dentro de miséria que eles mesmos constroem, clamando a forças inexistentes para que carreguem fardos fantasmas de sobre suas costas. a princípio me enchi de piedade. mas descobri que a piedade não constrói. se eu for o pai do homem, jamais deixará o homem de ser filho. percebi que, às vezes, é preciso tirar deles até a esperança, ou eles naufragarão num atormentado lago de sonhos. a sua dor não lhes ensina, eles demoram a aprender, como se demoram a aprender! esperariam ter à sua frente toda uma eternidade? será então assim tão difícil perceber que basta um erro para que se aprenda? que esperam os homens? que um poder supremo lhes abra as bocas e lhes enfie de fora para dentro a verdade da vida? como lhes dizer que a verdade sai do homem sempre, quase nunca entra?

            estão sempre dispostos a não aprender, para que lhes pese com maior tortura a sua dor. eles querem alimentar, com tanta dor, a sua culpa insaciável. não percebem que a culpa é como a bocarra de um grande ídolo montado sobre um vulcão. todo o sofrimento será insuficiente porque, caída a dor no fundo do vulcão, ela será incinerada e vai se transformar em nada. e não percebem que, para se livrar da dor, basta se livrar da culpa.

            esta foi a descoberta que eu fiz aos seis meses de idade. que minha dor era filha da minha culpa e minha culpa era conseqüência do código de ética. e que eu precisava me livrar da moral que colaram à minha face, quando nasci. e criar minha própria moral, de acordo com os profundos anseios de tudo aquilo que pertence ao meu ser. foi uma importante descoberta, talvez a mais importante da minha vida, porque me abriu as portas de tanto conhecimento e tantas emoções. foi uma descoberta que tive após um sonho inesquecível, no meu aniversário de seis meses. eu caminhava por um caminho estreito e comprido, não dava para perceber até onde ele ia, nem de onde vinha. eu ia com dificuldade, meu corpo cansado e sem muita liberdade. então percebi que eu estava amarrado: minha cabeça, meu coração, minhas pernas, meus rins, meus olhos, minha língua... de todo o meu corpo saíam fios que se perdiam lá atrás. parei, voltei o rosto e vi que meus fios estavam ligados a um enorme carroção que se perdia no meio da neblina. e eu estava carregando o carroção e tudo aquilo que nele estava; como não havia de ser tão difícil caminhar e aprender? e vi então, sobre o carroção, o vulto de minha mãe sem rosto e, ainda que sem rosto, eu sentia nela um grande temor; e vi também meu pai que nunca vi, um vulto de pé, não conseguia saber se ele tinha ou não tinha cabeça. e por que estava eu condenado a carregar aqueles fantasmas tão aflitos e tão pesados? tentei me livrar das cordas, elas estavam fortemente presas, era impossível. quase fiquei impaciente, mas já tinha descoberto antes que a impaciência consome. era preciso parar e pensar. resolvi voltar. por que, se eu voltasse, não voltaria o carroção, parado que estava. e me aproximei deles e a neblina como que se dissipava lentamente e os vultos se faziam nítidos. minha mãe com sua roupa negra e um pano branco a cobrir toda a sua cabeça; meu pai, de pé, segurando com as duas mãos a sua cabeça decepada. nenhum sorriso. muito parados, mas vivos. o sonho louco do homem, que não tem limites. não tem limites o sonho louco do homem. então eu falei:

            não vou mais carregar vocês. sigam-me, se quiserem, se precisarem me seguir. mas eu me recuso a carregá-los. não quero estar condenado ao passado. sou livre!

Atualizado em ( 05 - 06 - 2016 20:34 )

leia mais

 

Malhistorio - ĉapitro 3.

Malhistorio - ĉapitro 3.

 

  

          Prenu la libron kaj formanĝu ĝin.

 

 

          3. sendormaj tagoj.

 

 

          kiom da malamo eblas esti en la homa koro?

          kiom mezuras la maksimume eltenebla timo?

          el kia senfunda puto naskiĝas la decido defii?

          mi volas komenci de la komenco.

          mi volus komenci de la komenco. mi ne scias kie lokiĝas la origino de mia historio. mi ne scias ĉu ĝi havas originon kaj eĉ ne scias ĉu estas historio. estu ĝi historio, se oni konsideras ke iu ajn historio estas historio, eĉ tiu de la projekto pri nefekundigo de homo. ĉikaze restas la projekto pri revo aŭ projekto pri deziro aŭ projekto pri espero. kaj kiom da fojoj la historio de la deziro, de la espero aŭ de la revo, estas vakua historio pli inda kaj nepereema ol historioj pri kelkaj homoj, kun iliaj nuraj urinoj, fekaĵoj, bavaĵoj kaj ejakulaĵoj? estu mia historio, historio. senkomenca historio sed kun finaĵo.

          ĉar en mia koro estas nur demandoj kaj konstatoj pri tio, ke mi nenion scias, mi decidas pri historio jam komencita, sen kronologia ordo nek logika rigoreco. ĝuste tiu, kiun mi ĵus enkondukis parolinte pri granda malamo, granda timo kaj decido defii.  komence mi pensis eviti priskribadojn kaj rakontojn pri la ĉiutagaĵoj, kiuj kondukis min, pere de senkonsola kaj kontrolata maldormo, al la ekzakta punkto kie mi estas nun, la sojlo de mia propra fino. sed mi rimarkas ke sen priskribi kaj rakonti, oni ne komprenos min. mi ne scias ĉu mi volas ke oni min komprenu. mi ne scias ĉu mi kapablas fari min komprenata.

          mi scias, tamen, ke mi ne volas teksadi labirinton ene de labirinto, kvazaŭ angoranta rolulo de antikva libro.

          do, mi decidas favore al la mininuma rakonto, nur tio nepre bezonata por ke oni komprenu tion, kion mi intencas kroniki. kaj pro tio mi dividas mian rakonton je du partoj: kia estas tiu mondo kie mi vivas? kion mi havas por fari ene de ĝi?

          multege da jaroj jam pasis, ekde kiam alvenis la granda kataklismo. ni studis en la libroj pri la homa historio ke neatendata fatalaĵo okazis kaj ke bedaŭrinde mortis amasoj da homoj kaj preskaŭ la tuta kultura heredaĵo de nia specio aŭ perdiĝis aŭ estis malaperonta. sed ĉiuj libroj ripetas ke ni trafis la precipan celon de la granda rekonstruado: en kelkaj jardekoj la planedo denove reakiris sian malnovan vivmanieron, plena je komforto kaj allogo, iel ajn admirinda nova mondo. grava registaro, elektita de bravaj reprezentantoj de ĉiu kontinento, zorgis pri la universala ordo kaj estris la obeeman homamason, gvidante ĉiujn al la absoluta prospero. kaj la libroj diras, ke, kun la partopreno de ĉiu homo, nia granda civilizacio baldaŭ superos al si mem, pli baldaŭe ol sukcesas revi la naiva homa revo. tiuj libroj, plenaj je superlativoj, estis skribitaj de grupo nomata la sep saĝuloj de la tero, kaj ĝia stilo estis absolute perfekta. ĉiuj devis per tiuj libroj studi ĉiujn sciencojn por strebi al la heroa paŝo, kiu ankoraŭ pli forte apartigos nin, homoj, de la malsuperaj al ni en la skalo de la kreitaĵaro.

          kaj mi estis elektita, post la superaj ekzamenoj de la dua lernejo, mi estis elektita por dediĉi korpon kaj animon al aŭdaca projekto.

          la instruistoj diradis ke ili eltrovis, flugantajn ĉirkaŭ la planedo, en difinitaj kaj precizaj orbitoj, malgrandajn aĵetojn, probable senditajn de la homo mem, kaj de tiuj aĵetoj venis etaj sonoj al kelkaj grandaj maŝinoj. oni sciis ke tiuj maŝinoj konektiĝis al la telefonsistemo. tamen la telefonaparatoj funkciadis sendepende de tiuj maŝinoj ĉar, tuj post la nigra nokto, grupo ĝislace laboris kaj sukcesis funciigi ilin. kaj la instruistoj daŭrigis: post la legado de trovita nebrulata paĝo de kolora revuo, malsimile al niaj revuoj kies paĝoj estas blankaj, grizaj kaj nigraj, post la legado de tiu paĝo, oni deduktis ke tiuj maŝinoj probable utilis al komunikado inter grandaj distancoj, kvazaŭ eblus ke ni en la sudo povus samtempe paroli al homoj en la nordo.

legu pli

 
Pli multe da artikoloj...

<< Komenco < Antaŭa 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Sekva > Fino >>

Paĝo 11 de 115