canção 22.o país de cocanha
País de Cocanha, palcos deslumbrantes,
E luzes, matizes, e um som de quermesse.
Imagens que iludem gentes delirantes
Que nascem e crescem e morrem e estão
De acordo em tudo com a televisão.
Mas atrás do vídeo o que é que acontece?
E o que é que se vê, descendo ao porão?
O pobre jornalista Don Quixote, amordaçado.
O cabelo comprido empapado de sangue.
Rasgada a túnica, com bordados indianos.
A caneta quebrada num canto da sala.
E por sob os colares de conchas,
vestígios da tortura.
Ele é obrigado a escutar
a voz de bruxo do delegado a ranger,
como um odre gordo, cheio de vinho azedo:
nós não somos moinhos de vento;
e isto vai sempre acontecer
a cada vez que você
tentar socorrer, com sua pena do diabo,
menores ladrões, bichas e prostitutas.
Seu hippy idiota, eu não gosto
dessa sua bondade
mas o que mais me enfurece
é essa sua liberdade
de sair por aí, como quer,
e poder defender aos que ama.
E amanhã, como será?
Será ele machucado ainda uma outra vez
em algum outro lugar?
País de Cocanha, o estádio repleto.
Bandeiras ao vento, foguetes sem conta.
Platéias em fúria, o herói predileto,
O arcanjo ultrapassa terrível barreira
E é o gol que redime a fé brasileira.
Mas fora do estádio, o que é que se encontra?
E o que é que se vê, se é segunda-feira?
O professor Galileu Galilei,
famoso em todo o mundo civilizado,
encerrado numa cela vadia
por querer blasfemar, afirmando
que o que interessa não é nem o sol
nem a lua nem toda a tecnologia.
Mas tão somente o homem
e é em torno do homem
que gravita o universo de todos os atos
da humanidade.
Ele teve que se retratar e dizer
que é o progresso que se movimenta
e é o progresso que não pode parar;
conforme ensinou o filósofo Aristóteles Onassis.
E o senhor Galileu, um homem qualquer,
é impedido de ir por aí.
E amanhã, como será?
Será ele confinado ainda uma outra vez
em algum outro lugar?
País de Cocanha, em luz a avenida,
Nas arquibancadas o pasmo estrangeiro.
Pandeiros e surdos, eis o show da vida.
E brilhos e plumas e a mulata diaba.
O enredo, enaltece, a percussão, desaba.
E a vida no mês que não fevereiro?
E o que é que se faz quando a festa acaba?
Encerrado num lugarejo afastado
nos montes do Cáucaso
o professor Prometeu
que pretendeu, ousadia sem nome,
ensinar a ler o que não é escrito,
ensinar a desvendar a palavra enganosa
e a entender o mau cheiro escondido
nas brilhantes promessas da oratória.
Isto seria como dar fogo a crianças
que não estão preparadas para votar,
falou o ministro passarinho,
puxa-saco do Zeus das quatro estrelas.
E o professor Prometeu é visitado
diariamente por uma águia fardada
que vai lhe bicar com o bico podre
as mesmas perguntas de sempre.
O professor já está até sofrendo do fígado.
E amanhã, como será?
Será ele insultado ainda uma outra vez
em algum outro lugar?
País de Cocanha, pinheiros com neve.
Amor, o sagrado, de lado, o profano.
Mensagens de paz, o espírito leve.
Papai Noel nas lojas, comprar com vantagem.
Não mais pessimismo e nem malandragem.
Mas como é o amor no resto do ano?
Se não é natal, como é a mensagem?
Uma carta sofrida, chegada de fora.
Um tal de Gregório de Matos a assina.
Diz que tem saudades, quer voltar
e aguarda resposta ao seu pedido.
Mas o censor burocrata, homem inteligente,
que até conseguiu fazer
o primeiro ano do segundo grau,
sorri desdenhoso e vomita:
esse aqui, se depender de mim,
vai apodrecer no estrangeiro.
É desses músicos indecentes
que canta o que quer
e cada canção
tem mais palavrão
que palavras.
Além do quê, tem mania
de falar mal do patrão.
Não, não, não, não, não, não,
não, não, não, não e não.
E amanhã, como será?
Será ele exilado ainda uma outra vez
em algum outro lugar?
País de Cocanha, desfile da história.
Canhões, estandartes, vigor, galhardia.
Crianças a ouvir, discursos de glória.
Garboso uniforme. A espada dourada.
E o hino da pátria que a fileira brada.
E eu pergunto: O dia da Pátria é só um dia?
Que coisas encobre o fulgor da parada?
A cabeça de Tomás Morus, assassinado!
Suicidado na prisão.
Teria ousado um golpe de estado
o bom servidor da Constituição?
Saiu no jornal
que ele tentou contra a Lei
de Segurança Nacional.
Mas o que fez, realmente,
foi cometer o grave pecado
de se opor às decisões
do tirano zangado.
E divulgar os mistérios poltrões
da numerosa corte brasiliana.
E tudo se fez claro, como uma grande noite de corrupções.
E amanhã, como será?
Será ele assassinado ainda uma outra vez
em algum outro lugar?
Curitiba, 26.02.1981
rakontu alian anjo 09.la ruza ŝtelistoLa ruza ŝtelisto (unua parto) Noto: Ĉi tiu interesega senmorala rakonto de mia avino, certe kunigas pecojn el diversaj rakontoj. La tri unuaj peripetioj ŝajne devenas de similaj aventuroj de Pedro de Urdemalas aŭ Till Strigospegul'. La lasta aventuro, tiu ene de la palaco, estas pli perpleksiga; ĝi aperigas nigran sorĉistinon, intermetaĵo eble okazita en Brazilo. Tiu aventuro de la ruza ŝtelisto estas la vera kialo, pro kio mi decidis registri la rakontojn de mia avino. Mi neniam trovis en alia libro la lastan parton de ĉi rakonto kaj mi opiniis ke granda perdo okazos se mi ne skribu ĉion. En 2008 mi feliĉege surpriziĝis, kiam mi legis gravegan libron de la Homa Historio kaj trovis en ĝi la version, kiu, tutcerte, estas la originala. Estis foje viro kiu havis tri filojn kaj kelkajn filinojn. Atualizado em ( 11 - 07 - 2010 12:05 ) canção 21.canção em ura...
A ditadura da burrice 10: CANÇÃO EM URA, COM AUTOCENSURA
Venha, menino, entre na casa escura. Não tenha medo, tudo aqui é brandura. Você caiu nas malhas da urdidura, mas não te levaremos à sepultura. Sendo compreensivo, não há agrura. Não se deixe tomar pela desventura. Nós só queremos tua verdade pura. Fale tudo o que sabe e ganhe a soltura. Tudo o que for dito, a gente apura. É questão de rotina, a coisa não dura. Se quer ficar calado, a essa altura vai ter que por à prova sua bravura. Você irá pra câmara da tonsura. Vai saber o que é nossa desmesura. Os portões são trancados à fechadura e aprenda que a chave está bem segura. O tapa, o soco, a cela e a apertura, a agulha, o alicate e a mordedura o choque, a água, a lata, a faca que fura. É só uma lição, você já se cura. Curitiba, julho.1976 Atualizado em ( 24 - 05 - 2010 19:43 ) gil vicente 18.auto da barca da glóriaTrilogia das Barcas
Vuestras preces y clamores, amigos, no son oidas: pésanos tales señores iren á aquellos ardores ánimas tan escogidas. Desferir; ordenemos de partir; desferir, bota batel: vosotros no podeis ir, que en los yerros del vivir no os acordastes dél. (fala: Jorge Teles) Atualizado em ( 30 - 07 - 2010 11:16 ) canção 20.historinha...
Canções Diversas 10: HISTORINHA DAS MINAS GERAIS.
Nota: Minha avó sempre terminava esta historinha como narro no conto já postado nesse site: "E o bicho comeu dona Mariquinha!" Nós perguntávamos, rindo: "Mas comeu, como?" "A história termina assim e acabou". Mais tarde eu deduzi que esta cachorrinha é o superego da donzela; por isso, fiz para minha canção um final mais explícito. Dona Mariquinha era uma donzela. Sempre arrumadinha, sempre na janela. De roupa engomada e trança penteada, tão triste e sozinha ninguém vem a ela. Tinha uma cadela dona Mariquinha. Acendia a vela quando era noitinha. A cachorra amada, com a casa fechada, vigiava a donzela. vigiava a casinha. .............. Auauau auauau. .............. Auauau auauau. Dona Mariquinha ouviu a cadela indo na cozinha. Mas que noite, aquela! Levantou-se amuada e viu, assustada, que uma sombra vinha bem junto à janela. Deu uma piscadela pra que a cachorrinha tivesse cautela, e ficou quietinha. Veio uma pancada na porta trancada e uma voz que gela chama a coitadinha. - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! Dona Mariquinha beijou a cadela. Pôs leite e farinha na sua gamela. Não mais assustada, mas bem descansada, pois a cachorrinha defendera a ela. E apagada a vela, chegada a noitinha, deitou-se a donzela e ficou quietinha. De novo a pancada e a voz que brada. Dona Mariquinha, mas que voz, aquela! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! Limpando a cozinha, lavando panela, sonhava sozinha a pobre donzela. Ficava sismada, tremia por nada. E, assanhadinha, ficou tagarela. Sobre os sonhos dela, quem é que adivinha? Com flor na lapela, um príncipe vinha, de roupa enfeitada, coroa e espada, em carruagem bela, de sua mãe, rainha. - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! O tempo ia e vinha passando, e ela, fritando galinha, limpando a chinela, toda apaixonada espera a chamada. Mas a cachorrinha não poupa sua goela. O sangue congela de ira daninha. Pegou a cadela, quebrou-lhe a espinha. Deixou-a jogada e ficou trancada. Mas que voz, aquela, que do quintal vinha? - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! Aquela vozinha era da cadela que, mesmo mortinha, defendia a ela. Inda mais irada, toda transtornada, Dona Mariquinha queimou a cadela. Foi junto à pinguela atrás da casinha, jogou a cadela dentro da covinha. Depois de enterrada a cachorra odiada, apagou a vela e esperou sozinha. - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - Auauau, se tu cá vier! Foi da cachorrinha, que amava a donzela, aquela vozinha. De onde vinha ela? Ao pó misturada ficara espalhada da cadelazinha pelagem singela. Raivosa, a donzela correu à cozinha, encheu a tigela com água limpinha. Limpou apressada a casa empoeirada. E, assim, da cadela, nenhum pelo tinha. - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - ................. - Dona Mariquinha, qui tu rango rango! - ................. Como a cachorrinha não latiu por ela, Dona Mariquinha, de olhar de gazela, chegou deslumbrada à porta fechada e, bem dengozinha, girou a tramela. (Epílogo) Não era príncipe nem moço loiro. Mas um bichão. Peito peludo, saco pendente, Pinto comprido. E a Mariquinha, apavoradinha, deitou-se na cama, à espera da morte. Abriu a perninha e ficou quietinha. Qual foi sua sorte? O bicho comeu Dona Mariquinha! Comeu inteirinha! Depois, se encolheu Junto à mulherzinha E adormeceu! Curitiba, abril.1981 Atualizado em ( 10 - 05 - 2010 11:49 ) |
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